Um poema de Ramón Méndez Estrada

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OS MOTIVOS DO GRIFO

*

Eu nasci para perder

ou para ganhar

só nasci, simplesmente…

Minha vida é esta

– as cartas na mesa:

a segunda metade do Século Vinte,

um pouco na nostalgia que passou de moda,

outro nos cinemas y na escola,

os Testemunhas de Jeová

pregam que está chegando o fim do mundo

e os marxistas

que é só o começo,

está valentão – disse um amigo que a polícia pegou -,

chutes na bunda,

murros no tórax e nas costas,

e que fazer,

valemadrear¹ o mundo

marijuanar as tardes…

**

O de menos seria

culpar a escassez de energéticos

a velocidade do tempo

a objetividade do mundo

mas sei bem

que é a negligência

que abre e fecha portas

até me entregar

cada tarde

oca.

***

Me cansou

a estupidez de ser homem

Eu sei:

qualquer lobo pode também me contar

magníficas histórias de cordeiros perversos,

as lagartixas não sabem

que vivem no Terceiro Mundo

nem os porcos podem

inventar bomba alguma

_____________

¹Valemadrear, termo mexicano proveniente da frase “Me vale madres” usada comumente no México para denotar falta de interesse.

__________________________________________

LOS MOTIVOS DEL GRIFO

*

Yo no nací para perder

o para ganar

sólo he nacido, simplemente…

Mi vida es ésta

– las cartas en la mesa:

la segunda mitad del Siglo Veinte,

un poco en la nostalgia que ha pasado de moda,

otro en los cines y la escuela,

los Testigos de Jehová

predican que está llegando el fin del mundo

y los marxistas

que sólo es el comienzo,

está cabrón –dijo un amigo que lo agarró la policía–,

patadas en el culo,

madrazos en el tórax y en la espalda,

y qué hacerle,

valemadrear el mundo

mariguanear las tardes…

* *

Lo de menos sería

culpar a la escasez de energéticos

a la velocidad del tiempo

a la ojetividad del mundo

pero sé bien

que es la negligencia

que abre y cierra las puertas

hasta entregarme

cada tarde

hueca.

* * *

Me cansó

la estulticia de ser hombre

Yo sé:

cualquier lobo puede también contarme

magníficas historias de corderos perversos,

las lagartijas no saben

que viven en el Tercer Mundo

ni los cerdos pueden

inventar bomba alguna.

– Ramón Méndez Estrada (México, 1954- 2015)

Um poema de Eduardo Lizalde

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O cão

Este é um cão

Uma criatura que se ignora.

Não sabe

que pertence a uma classe

– de coisa ou besta -, ignora

que a palavra cão

não designa a ele em especial:

crê que se chama cão,

crê que se chama homem,

crê que se chama ‘vem’,

crê que se chama ‘morde’.

– Eduardo Lizalde; tradução Nina Rizzi

______________

El perro

Éste es un perro.

Una creiatura que se ignora.

No sabe

que pertenece a una clase

-de cosa o bestia-, ignora

que la palabra perro

no lo designa a él en especial:

cree que se llama perro,

cree que se llama hombre,

cree que se llama ‘ven’,

cree que se llama ‘muerde’.

1ª versão pra Roberto Juarroz

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17

Deter a palavra
um segundo antes do lábio
um segundo antes da avidez compartilhada,
um segundo antes do coração do outro,
para que haja pelo menos um pássaro
que possa prescindir de todo ninho.

O destino é de ar.
As bússolas assinalam só um de seus fios,
mas a ausência precisa de outros
para que as coisas sejam
seu destino de ar.

A palavra é o único pássaro
que pode ser igual a sua ausência.

– Roberto Juarroz, Poemas de Otredad; trad. Nina Rizzi

[Desenho-colagem: Alejandra Acosta, no seu ‘Pájaro contemplativo‘: http://www.pajarocontemplativo.com/%5D

Um poema de Pierre Reverdy

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 Juan Gris, “Portrait of Pierre Reverdy,” c. 1918

Casal e cadência [versão 1, música]

O fio que sustenta o universo

acaba de se romper

O fio que sustentava a terra

queimou

Uma estrela fulgaz ao passar o tostou

            Quem dança ao fundo do céu

            Quem não conhece o anteparo

As letras que formavam palavras ao léu

E que pesavam no baloiço embalo

            Quem não cai

            E olha para o chão

            E o outro para os ares

Todos os que estão lá no alto

E abaixo descem

Com anéis de atocalto

Quase todos se assemelham

E a luz em suas mãos camada a camada

Treme pela noite mais que à alvorada

No momento em que elas choram

As estrelas sobre a estrada

De lembranças desencarnam

 *

 

 Casal e cadência [versão 2, literatura]

 

O fio que sustenta o universo

acaba de se romper

O fio que sustentava a terra

foi queimado

Uma estrela fugaz o queimou ao passar

                        Quem dança ao fundo do céu

                        Quem não conhece a prudência

As letras que formavam palavras artificiais

E que pesavam na balança

            Quem não cai

            E olha até o chão

            E o outro que olha até o ar

Todos esses que estão lá em cima

E abaixam agora

Com anéis em suas mãos

Quase todos se parecem

E a luz em suas mãos

Treme pela noite mais que pela manhã

No momento em que elas choram

As estrelas sobre o caminho

Umas lembranças que morrem

– ‘Sources du vent’; trad. Nina Rizzi

***

 

Couplet et cadence

Le fil qui soutenait l’univers

vient  de casser

Le fil qui soutenait la terre

a été brûlé

Une etóile filante em passant l’a brûlé

                        Celui que danse au fond du ciel

                        qui ne connâit pas la prudence

Les lettres qui formaient des mots artifciels

Et qui pesaient dans la balance

            Celui qui ne tombe pas

            Et regarde par terre

            Et l’autre qui regarde en l’air

Tous ceux qui sont là-haut

Et maintenant descendent

A leur main des anneaux

Presque tous se ressemblent

Et la lumière dans leur main

Tremble le soir plus qu’au matin

Au moment où elles pleurent

Les étoiles sur le chemin

Des souvenirs qui meurent

–          REVERDY, Pierre. “Couplet et cadence, IN: ‘Main d’œuvre: poèmes 1913-1949’; Mercure de France, 1989. p. 111. 

Um poema-manifesto de Pedro Lemebel*

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MANIFESTO (FALO POR MINHA DIFERENÇA)[1]

 

Não sou Pasolini pedindo explicações

Não sou Ginsberg expulso de Cuba

Não sou uma bicha disfarçada de poeta

Não preciso de disfarces

Aqui está minha cara

Falo por minha diferença

Defendo o que sou

E não sou tão esquisito

Me repugna a injustiça

E suspeito dessa dança democrática

Mas não me fale do proletariado

Porque ser pobre e bicha é pior

Há que ser ácido para suportar

É ter que dar voltas nos machinhos da esquina

É um pai que te odeia

Porque o filho desmunheca

É ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro

Envelhecidas de limpeza

Embalando de doença

Por maus modos

Por má sorte

Como a ditadura

Pior que a ditadura

Porque a ditadura passa

E vem a democracia

E desvia para o socialismo

E então?

Que farão com nossos companheiros?

Irão nos amarrar às tranças em fardos

com destino a um sidário[2] cubano?

Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma

Como no barco do general Ibáñez

Onde aprendemos a nadar

Mas ninguém chegou até à costa

Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas

Por isso as casas de caramba[3]

Brindaram com uma lágrima negra

Aos carneiros comidos pelos caranguejos

Este ano que a Comissão de Direitos Humanos

Não lembra

Por isso companheiro te pergunto

Existe ainda o trem siberiano

da propaganda reacionária?

Esse trem que passa por suas pupilas

Quando minha voz fala demasiado doce

E você?

Que fará com essa lembrança de meninos

Nos pajeando e outras coisas

Nas férias de Cartagena?

O futuro será em preto e branco?

O tempo correrá noite e dia

sem ambiguidades?

Não haverá uma bichona em alguma esquina

desequilibrando o futuro de seu novo homem?

Vão nos deixar bordar pássaros

nas bandeiras da pátria livre?

O fuzil eu deixo a você

Que tem o sangue frio

E não é medo

O medo foi indo embora de mim

Atacando com facadas

Nos inferninhos sexuais onde andei

E não se sinta agredido

Se te falo dessas coisas

E te olho o volume

Não sou hipócrita

Acaso os peitos de uma mulher

Não o faz baixar os olhos?

Você não acredita

Que sozinhos na serra

Algo nos aconteceria?

Embora depois me odiasse

Por corromper sua moral revolucionária

Tem medo que se homessexualize a vida?

E não falo de te enfiar e tirar

e tirar e te enfiar somente

Falo de ternura companheiro

Você não sabe

Como custa encontrar o amor

Nestas condições

Você não sabe

O que é carregar essa lepra

As pessoas ficam à distância

As pessoas compreendem e dizem:

É viado mas escreve bem

É viado mas é um bom amigo

Super-boa-onda[4]

Eu não sou boa-onda

Eu aceito o mundo

Sem lhe pedir essa boa-onda

Mas ainda assim riem

Tenho cicatrizes de risos nas costas

Você acredita que eu penso com o pau

E que à primeira parrillada[5] da CNI[6]

Eu ia soltar tudo

Não sabe que a masculinidade

Nunca a aprendi nos quartéis

Minha masculinidade me ensinou a noite

Atrás de um poste

Essa masculinidade de que você se gaba

Te enfiaram em um regimento

Um milico assassino

Desses que ainda estão no poder

Minha masculinidade não recebi do partido

Porque me rechaçaram com risadinhas

Muitas vezes

Minha masculinidade aprendi militando

Na dureza desses anos

E riram da minha voz afeminada

Gritando: vai cair, vai cair

E embora você grite como homem

Não conseguiu que caísse

Minha masculinidade foi amordaçada

Não fui ao estádio

E me peguei aos trancos pelo Colo Colo[7]

O futebol é outra homossexualidade encoberta

Como o boxe, a política e o vinho

Minha masculinidade foi morder as provocações

Engolir a raiva para não matar todo mundo

Minha masculinidade é me aceitar diferente

Ser covarde é muito mais duro

Eu não dou a outra face

Dou o cu companheiro

E esta é a minha vingança

Minha masculinidade espera paciente

Que os machos fiquem velhos

Porque a esta altura do campeonato

A esquerda corta seu cu flácido

No parlamento

Minha masculinidade foi difícil

Por isso não subo nesse trem

Sem saber aonde vai

Eu não vou mudar pelo marxismo

Que me rechaçou tantas vezes

Não preciso mudar

Sou mais subversivo que vocês

Não vou mudar somente

Pelos pobres pelos ricos

Ou outro cachorro com esse osso

Tampouco porque o capitalismo é injusto

Em Nova Iorque as bichas de beijam na rua

Mas esta parte deixo para você

Que tanto se interessa

Que a revolução não se apodreça completamente

A vocês entrego esta mensagem

E não é por mim

Eu estou velho

E sua utopia é para as gerações futuras

Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada

E eu quero que voem companheiro

Que sua revolução

Dê a eles um pedaço de céu vermelho

Para que possam voar

_________________

* Pedro Lemebel (chileno, 1955) é ensaísta, cronista e romancista. Conhecido por sua crítica ao autoritarismo e suas representações humorísticas da cultura popular chilena, a partir de uma perspectiva não convencional.


[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui: http://lemebel.blogspot.com.br/2005/11/manifiesto-hablo-por-mi-diferencia.html

 

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[4] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[5] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[6] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[7] Time de futebol chileno.

_________________________________________

– Tradução de Nina Rizzi, especial para a Revista Ellenismos, 27: des-construindo o gênero.

Um poema de Joyce Mansour

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POEMA

Adoro fazer amor apoiada num animal
Admirar os movimentos dos funestos áugures
Que se agitam no teto em suas pantufas douradas
Adoro extrair os órgãos do gênio mais sólido
Para exibi-lo em pleno dia
Sobre as loucas rendas de Bruges
Adoro engolir os furiosos do Cáucaso
Seus sexos têm um gosto de fome.
 ____________________
 
POEMA
 
J’aime faire l’amour accondée à une bête
Admirer les mouvements des funestes augures
Qui s’agitent au plafound dans lers pantoufles dorées
J’aime extraire les organes du génie le plus solide
Pour l’étaler en plein jour
Sur les folles dentelles de Bruges
J’aime engloutir les furiex du Caucase
Lers sexes ont un goût de famine.
 
– Joyce Mansour, IN: ‘Carré blanc’, 1966.

Torna Zéfiro!

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METAPOEMA
Ottavio Rinuccini (italiano, 1562-1621)

Zefiro torna, e di soavi accenti
l’aer fa grato e ‘l pie discioglie a l’onde,
e mormorando tra le verdi fronde,
fa danzar al bel suon su ‘l prato i fiori.

Inghirlandato il crin Fillide e Clori
note tempran d’amor care e gioconde;
e da monti e da valli ime e profonde
raddoppian l’armonia gli antri canori.

Sorge più vaga in ciel l’aurora, e ‘l sole
sparge più luci d’or: più puro argento
fregia di Teti il bel ceruleo manto.

Sol io, per selve abbandonate e sole,
l’ardor di due begli occhi e ‘l mio tormento,
come vuol mia ventura, hor piango hor canto.

O poema de Rinuccini é um metaplágio aos soneto de Petrarca ‘Torna Zéfiro e o bom tempo traz de volta’ – n º 310 no Cancioneiro -, aparece no conjunto de Monteverdi em seu sexto livro de 1614; assim como alude às ninfas. Um poema prontinho para música, hm? e para nossa metatradução, ora dunque 

TORNA ZÉFIRO
Metatradução de Nina Rizzi

Torna, Zéfiro, com palavras gentis e acentos doces
O ar agradecido se derrete nas ondas,
Murmura entre a verde ramagem,
Faz sua dança ao som das flores na campina.

Phyllis e Chloris, com guirlandas no rosto
Soltam notas alegres e doces como o amor
E das montanhas e vales profundos
Me rodopia o eco sonoro e harmônico das cavernas.

Levanta-se nas incertezas do céu da aurora
O sol a espalhar luzes de ouro ou prata pura
Enquanto Thétis ostenta seu manto cerúleo.

E eu, vagando abandonado à floresta e ao sol
Ardo ao brilho de dois olhos belos, o meu tormento,
Assim como minha ventura, eu choro, eu canto.

 

OUÇA: ‘Zefiro torna e di soavi accenti’, SV 251, madrigal para dois tenores com baixo contínuo (1632); com os tenores Jean-Paul Fouchécourt e Mark Padmore, conduzido por William Christie. AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=85tCzdRt6UE

ZEFIRO QUEEEM???

Zéfiro, o vento Oeste, era irmão de Bóreas e habitava na Trácia. A lenda descreve-o como um vento primitivamente violento, que destruía tudo com o seu sopro indomável: arrasava plantações, provocava naufrágios, causava grandes danos aos homens mas uma grande paixão o fêz mudar. 

A súbita paixão de Zéfiro por Clóris – chamada de Flora pelos romanos – transformaou o caráter mitológico do vento dando-lhe uma versão benéfica. Clóris era a rainha da primavera e era quem espalhava a beleza das flores ao mundo, dando-lhes as cores e o perfume. O contraste com Zéfiro, o vento que destruia a beleza das flores, fêz com que Cloris o rejeitasse.

Mas o amor de Zéfiro era sincero, pleno e construtivo. Para conquistar Clóris, ele transformou a sua personalidade tempestuosa e destrutiva, tornando-se um vento suave que soprava lentamente para não danificar a beleza criada por sua amada. Representado na forma de um jovem com asas que anunciava a primavera e o renascer das plantas, Zéfiro e Clóris tiveram um filho, Carpo – o fruto. 
*

[IMAGEM: “O Nascimento de Vênus (detalhe)”, de Sandro Botticelli]

Metatradução

Imagen
Peter Paul Rubens (flamengo, 1577-1640), Vênus e Adonis, c. 1635. Óleo sobre tela, 95,5 x 77,5 cm.
 
A HISTÓRIA DE VÊNUS E ADONIS
 
Eu, Vênus, te lanço um olhar de súplica, Adonis, para que fique comigo.
Nua, te seguro o braço, em causa deste pequeno cupido que me flecha em mãos a perna.
Mas Adonis, você é a verdadeira encarnação de uma estátua grega, revela-se insensível ao meu apelo amoroso, e isso lhe será fatal, pois será morto por um javali.
Porém, deste nosso encontro trágico, o que prevalece é o amor.
É bonito, idílico.
 
– Ovídio, Metamorfoses, livro décimo; tradução/ transcriação Nina Rizzi

um experimento

ECO
 
Quanto dura o amor no coração de uma mulher?
 
– (Horas)
 
E ela não me amava o quanto eu a amava?
 
– (Nunca)
 
E como sei que você, homem, reclama comigo?
 
– (Eco).
 *

ECO

Fidenzio Glottogrisio
 
In cuor di donna quanto dura amore?
 
– (Ore)
 
Ed ella non mi amò quant’io l’amai?
 
– (Mai)
 
Or chi sei tu che sì ti lagni meco?
 
– (Eco).

Dois poemas de Anne Sexton

Balada da masturbadora solitária

 
O fim do caso é sempre morte.
Ela é minha oficina. Olho escorregadio,
pra dentro de minha tribo. O meu fôlego
acha que você foi. Eu vejo horrorizada
aqueles que estão aqui. Eu sou alimento e alimentada.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
 
Dedo com dedo, agora ela é minha.
Ela não está muito longe. Ela é o meu encontro.
Eu batia como um sino. Eu reclinava
no pavilhão onde você usou para a montagem dela.
Você emprestou-me as hastes, florido.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
 
Tomemos por exemplo esta noite, meu amor,
que cada casal só se reúne
com uma inversão conjunta, abaixo, acima,
os dois abundantes na esponja e pena,
ajoelhado e empurrando, cabeça a cabeça.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
 
Eu saio do meu corpo dessa forma,
um milagre irritante. Eu poderia
colocar os sonhos de mercado em exibição?
Estou espalhada. Eu cruxifico.
Minha ameixa é pouca é o que você disse.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
 
Então, meu rival de olhos pretos veio.
A senhora da água, levantando-se na praia,
um piano na ponta dos dedos, vergonha,
nos lábios e fala uma flauta.
E eu estava com a vassoura batendo nos joelhos desta vez.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
 
Ela tomou-lhe o caminho, a mulher toma
um vestido de negócio fora da cremalheira
e eu quebro a forma como um quebra pedras.
Eu entrego de volta os seus livros e materiais de pesca.
O jornal de hoje diz que você é casado.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
 
Os meninos e meninas são uma coisa hoje em dia, à noite.
Eles desabotoam blusas. Eles encarceram moscas.
Eles tiram os sapatos. Eles desligam a luz.
As criaturas em seus reflexos estão cheias de mentiras.
Eles estão comendo uns aos outros. Eles são superalimentados.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

_________________

 
The Ballad of the Lonely Masturbator
Anne Sexton
 
The end of the affair is always death. 
She’s my workshop. Slippery eye, 
out of the tribe of myself my breath 
finds you gone. I horrify 
those who stand by. I am fed. 
At night, alone, I marry the bed.
 
Finger to finger, now she’s mine. 
She’s not too far. She’s my encounter. 
I beat her like a bell. I recline 
in the bower where you used to mount her. 
You borrowed me on the flowered spread. 
At night, alone, I marry the bed.
 
Take for instance this night, my love, 
that every single couple puts together 
with a joint overturning, beneath, above, 
the abundant two on sponge and feather, 
kneeling and pushing, head to head. 
At night alone, I marry the bed.
 
I break out of my body this way, 
an annoying miracle. Could I 
put the dream market on display? 
I am spread out. I crucify. 
My little plum is what you said. 
At night, alone, I marry the bed.
 
Then my black-eyed rival came. 
The lady of water, rising on the beach, 
a piano at her fingertips, shame 
on her lips and a flute’s speech. 
And I was the knock-kneed broom instead. 
At night, alone, I marry the bed.
 
She took you the way a woman takes 
a bargain dress off the rack 
and I broke the way a stone breaks. 
I give back your books and fishing tack. 
Today’s paper says that you are wed. 
At night, alone, I marry the bed.
 
The boys and girls are one tonight. 
They unbutton blouses. They unzip flies. 
They take off shoes. They turn off the light. 
The glimmering creatures are full of lies. 
They are eating each other. They are overfed. 
At night, alone, I marry the bed.
*
 
 

A música nada de volta para mim
Anne Sexton; tradução Nina Rizzi

Senhor, espere. O caminho é o lar?
Eles levaram a luz para fora
e a escuridão está se movendo no canto.
Não há jeito de entrar nesta sala,
quatro senhoras, mais de oitenta,
usando fraldas como urinol.
La la la, Oh música nada de volta para mim
e eu posso sentir a melodia que jogaram
a noite eles me deixaram
nesta instituição privada em uma colina.

Imagine-o. O rádio a tocar
e todo mundo aqui, foi uma loucura.
Eu gostei e dançamos em um círculo.
A música derrama sobre o sentido
e de uma forma engraçada
a música vê mais do que eu
Quero dizer que se lembra melhor;
se lembra da primeira noite aqui.
Foi o frio estrangulador de novembro;
até mesmo as estrelas foram amarradas no céu
e a lua era muito brilhante
uma guilhotina através das grades para ficar
com um canto da cabeça.
Esqueci tudo o resto.

Travam-me nesta cadeira por oito horas
e não há sinais de dizer o caminho,
apenas o rádio do espancamento de si mesmo
e a canção que se lembra
mais do que eu Oh, la la la,
essa música nada de volta para mim.
A noite eu vim. Eu dancei um círculo
e não estava com medo.
Senhor?
_____________

Music Swims Back to Me

Anne Sexton
 
Wait Mister. Which way is home? 
They turned the light out 
and the dark is moving in the corner. 
There are no sign posts in this room, 
four ladies, over eighty, 
in diapers every one of them. 
La la la, Oh music swims back to me 
and I can feel the tune they played 
the night they left me 
in this private institution on a hill.
 
Imagine it. A radio playing 
and everyone here was crazy. 
I liked it and danced in a circle. 
Music pours over the sense 
and in a funny way 
music sees more than I. 
I mean it remembers better; 
remembers the first night here. 
It was the strangled cold of November; 
even the stars were strapped in the sky 
and that moon too bright 
forking through the bars to stick me 
with a singing in the head. 
I have forgotten all the rest.
 
They lock me in this chair at eight am 
and there are no signs to tell the way, 
just the radio beating to itself 
and the song that remembers 
more than I. Oh, la la la, 
this music swims back to me. 
The night I came I danced a circle 
and was not afraid. 
Mister? 
*