Um poema de Óscar Hahn

rimbaud-in-abisinia

 

Anotações no diário de Rimbaud

 

  1. (África, 1880 – 1891)

 

Eu cheguei até aqui navegando pelo Mar Vermelho

depois de dar à morte ao indesejável

 

Tinha 20 anos e era uma das virgens loucas

 

Aden é a cratera de um vulcão extinto

sem uma folha de grama sem uma gota de água

 

Não há nada para ver ou tocar exceto lava e cinzas

 

Montei meu cavalo e atravessei as areias da Somália

Agora estou em Harar a cidade proibida

 

Levei rifles e munições para o rei de Soa

mas não me pagou o combinado o maldito bastardo

 

Apareceram varizes em minha perna

Doem muito e não me deixam dormir

 

Enquanto eu fazia a barba no espelho

vi que o indesejável estava atrás de mim

com os cabelos tingidos e sobrancelhas arrancadas

 

Me virei de uma vez, mas não havia ninguém

 

No deserto as miragens zombam de nós

Eu caçoo das miragens

 

Me dizem que a perna gangrenou

que tenho muita febre que devo sair daqui

 

Os nativos fizeram uma liteira de lona

e me carregaram os 300 quilômetros

que separam as montanhas de Harar e o porto de Zeila

 

 

  1. (Hospital de Marselha 1891)

 

Volto ao meu país após 16 anos de ausência

Pareço um esqueleto e as pessoas se assustam comigo

 

As mulheres cuidam dos ferozes inválidos

que retornam de lugares tórridos

 

Hoje me amputaram a perna direita

 

A vida é um horror interminável

Não sei para que nos esforçamos para continuar vivendo

 

O Marido Infernal apareceu para mim em um sonho

Tinha um rosário entre os dedos

 

Três horas mais tarde Deus foi negado

e suas 98 feridas começaram a sangrar

 

Eu tentei andar com muletas

mas não consegui avançar nenhum centímetro

 

Eu que atravessei montanhas e desertos

rios e mares cidades e reinos

e a quem chamavam o pés de vento

 

Os sacerdotes não querem me dar a comunhão

Temem que me engasgue com a carne de Cristo

 

Da minha cama eu vi a silhueta do indesejável

 

Vinha caminhando com a perna que me cortaram

e trazia um barco de papel na mão

 

Você está morto eu disse furioso

E ele disse: “Eu estou vivo o morto é você

 

Coloque o barco de papel nessa poça d’água

e chegará aonde você nunca chegou”

 

– Tradução Nina Rizzi

***

 

Anotaciones en el diario de Rimbaud

 

  1. (África, 1880 – 1891)

 

He llegado hasta aquí navegando por el Mar Rojo

después de darle muerte al indeseable

 

Tenía 20 años y era una de las vírgenes locas

 

Adén es el cráter de un volcán apagado

sin una brizna de pasto sin una gota de agua

 

No hay nada que ver o tocar excepto lava y ceniza

 

Monté en mi caballo y atravesé las arenas de Somalia

Ahora me encuentro en Harar la ciudad prohibida

 

Le llevé rifles y municiones al rey de Soa

pero no me pagó lo convenido el muy cabrón

 

Me han brotado várices en la pierna

Me duelen mucho y no me dejan dormir

 

Mientras me afeitaba frente al espejo

vi que el indeseable estaba detrás de mí

con el pelo teñido y las cejas depiladas

 

Me di vuelta de golpe pero no había nadie

 

En el desierto los espejismos se burlan de nosotros

Yo me burlo de los espejismos

 

Me dicen que la pierna se ha gangrenado

que tengo mucha fiebre que debo salir de aquí

 

Los nativos hicieron una litera de lona

y me cargaron los 300 kilómetros

que separan las montañas de Harar y el puerto de Zeila

 

  1. (Hospital de Marsella 1891)

 

Vuelvo a mi país después de 16 años de ausencia

Parezco un esqueleto y la gente se asusta de mí

 

Las mujeres cuidan a los feroces inválidos

que retornan de lugares tórridos

 

Hoy me amputaron la pierna derecha

 

La vida es un horror interminable

No sé para qué nos empeñamos en seguir viviendo

 

El Esposo Infernal se me apareció en un sueño

Tenía un rosario entre los dedos

 

Tres horas más tarde Dios fue negado

y sus 98 heridas empezaron a sangrar

 

He tratado de caminar con muletas

pero no he podido avanzar ni un centímetro

 

Yo que atravesé montañas y desiertos

ríos y mares ciudades y reinos

y a quien llamaban el suelas de viento

 

Los curas no quieren darme la comunión

Temen que me atragante con la carne de Cristo

 

Desde mi cama vi la silueta del indeseable

 

Venía caminando con la pierna que me cortaron

y traía un barco de papel en la mano

 

Tú estás muerto le dije furioso

Y él dijo: “Yo estoy vivo el muerto eres tú

 

Pondrás el barco de papel en ese charco de agua

y llegarás a donde nunca has llegado”

 

– Óscar Hahn, ‘Apariciones Profanas’, Hiperión/ 2002

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