Giorgio Agamben: um poema e um ensaio

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Clareiras

                                                            Para Martin Heidegger

 

Coros do olhar,

recua!

Não quero mais reinar.

Agora, fogo, agora:

Estou pronto.

Qual máscara terei que encontrar?

Eu quero.

(1967)

**

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 A QUEM SE DIRIGE A POESIA?

 

A quem se dirige a poesia? Só é possível responder esta pergunta se se entende que o destinatário do poema não é uma pessoa real, mas uma exigência.

Uma exigência nunca coincide com as categorias modais com as quais estamos familiarizados. O objeto da exigência não é nem necessário, nem contingente, não é possível ou impossível.

Pode-se dizer, em contrapartida, que uma coisa ‘exige’ (‘exacts’) ou demanda outra, quando sucede que, se a primeira coisa é, a outra coisa também tem que ser, sem que necessariamente a primeira esteja implicando logicamente a segunda, ou forçando-a a existir no âmbito dos feitos. Uma exigência é simplesmente algo além de toda necessidade e de toda possibilidade. É similar a uma promessa que só pode ser cumprida por aquele que a recebe.

Benjamin escreveu alguma vez quer a vida do Píncipe Myshkin exige permanecer inesquecível, mesmo quando todos a esquecem. Da mesma forma, o poema exige ser lido, mesmo quando ninguém o leia.

Isto mesmo pode se expressar dizendo que na medida em que a poesia demanda ser lida, deve permanecer ilegível. Estritamente falando, não há um leitor de poesia.

É isto talvez o que Cesar Vallejo tinha em mente quando, ao definir a intenção última e a dedicatória de quase toda sua poesia, não encontrou outras palavras mais que dizer para o analfabeto a quem escrevo. É importante nos determos na formulação aparentemente redundante “para o analfabeto a quem escrevo”. Aqui “para” significa menos “para” que em “lugar de”; tal como Primo Levi disse que ele dava testemunho por – isto é, “em lugar de” – aqueles chamados Muselmanner que, no jargão de Auschwitz nunca puderam dar testemunho.

O verdadeiro destinatário da poesia é aquele que não está habilitado para lê-la. Mas isto também significa que o livro, que é destinado a quem nunca o lerá – o iletrado – foi escrito por uma mão que, em certo sentido, não sabe ler e que é, portanto, uma mãe iletrada. A poesia é aquilo que regressa a escritura até o lugar de ilegibilidade de onde provém, para onde ela segue se dirigindo.

(2015)

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