Um poema-manifesto de Pedro Lemebel*

pedro-lemebel-manifiesto-1987

MANIFESTO (FALO POR MINHA DIFERENÇA)[1]

 

Não sou Pasolini pedindo explicações

Não sou Ginsberg expulso de Cuba

Não sou uma bicha disfarçada de poeta

Não preciso de disfarces

Aqui está minha cara

Falo por minha diferença

Defendo o que sou

E não sou tão esquisito

Me repugna a injustiça

E suspeito dessa dança democrática

Mas não me fale do proletariado

Porque ser pobre e bicha é pior

Há que ser ácido para suportar

É ter que dar voltas nos machinhos da esquina

É um pai que te odeia

Porque o filho desmunheca

É ter uma mãe de mãos marcadas pelo cloro

Envelhecidas de limpeza

Embalando de doença

Por maus modos

Por má sorte

Como a ditadura

Pior que a ditadura

Porque a ditadura passa

E vem a democracia

E desvia para o socialismo

E então?

Que farão com nossos companheiros?

Irão nos amarrar às tranças em fardos

com destino a um sidário[2] cubano?

Irão nos enfiar em algum trem para parte alguma

Como no barco do general Ibáñez

Onde aprendemos a nadar

Mas ninguém chegou até à costa

Por isso Valparaíso apagou suas luzes vermelhas

Por isso as casas de caramba[3]

Brindaram com uma lágrima negra

Aos carneiros comidos pelos caranguejos

Este ano que a Comissão de Direitos Humanos

Não lembra

Por isso companheiro te pergunto

Existe ainda o trem siberiano

da propaganda reacionária?

Esse trem que passa por suas pupilas

Quando minha voz fala demasiado doce

E você?

Que fará com essa lembrança de meninos

Nos pajeando e outras coisas

Nas férias de Cartagena?

O futuro será em preto e branco?

O tempo correrá noite e dia

sem ambiguidades?

Não haverá uma bichona em alguma esquina

desequilibrando o futuro de seu novo homem?

Vão nos deixar bordar pássaros

nas bandeiras da pátria livre?

O fuzil eu deixo a você

Que tem o sangue frio

E não é medo

O medo foi indo embora de mim

Atacando com facadas

Nos inferninhos sexuais onde andei

E não se sinta agredido

Se te falo dessas coisas

E te olho o volume

Não sou hipócrita

Acaso os peitos de uma mulher

Não o faz baixar os olhos?

Você não acredita

Que sozinhos na serra

Algo nos aconteceria?

Embora depois me odiasse

Por corromper sua moral revolucionária

Tem medo que se homessexualize a vida?

E não falo de te enfiar e tirar

e tirar e te enfiar somente

Falo de ternura companheiro

Você não sabe

Como custa encontrar o amor

Nestas condições

Você não sabe

O que é carregar essa lepra

As pessoas ficam à distância

As pessoas compreendem e dizem:

É viado mas escreve bem

É viado mas é um bom amigo

Super-boa-onda[4]

Eu não sou boa-onda

Eu aceito o mundo

Sem lhe pedir essa boa-onda

Mas ainda assim riem

Tenho cicatrizes de risos nas costas

Você acredita que eu penso com o pau

E que à primeira parrillada[5] da CNI[6]

Eu ia soltar tudo

Não sabe que a masculinidade

Nunca a aprendi nos quartéis

Minha masculinidade me ensinou a noite

Atrás de um poste

Essa masculinidade de que você se gaba

Te enfiaram em um regimento

Um milico assassino

Desses que ainda estão no poder

Minha masculinidade não recebi do partido

Porque me rechaçaram com risadinhas

Muitas vezes

Minha masculinidade aprendi militando

Na dureza desses anos

E riram da minha voz afeminada

Gritando: vai cair, vai cair

E embora você grite como homem

Não conseguiu que caísse

Minha masculinidade foi amordaçada

Não fui ao estádio

E me peguei aos trancos pelo Colo Colo[7]

O futebol é outra homossexualidade encoberta

Como o boxe, a política e o vinho

Minha masculinidade foi morder as provocações

Engolir a raiva para não matar todo mundo

Minha masculinidade é me aceitar diferente

Ser covarde é muito mais duro

Eu não dou a outra face

Dou o cu companheiro

E esta é a minha vingança

Minha masculinidade espera paciente

Que os machos fiquem velhos

Porque a esta altura do campeonato

A esquerda corta seu cu flácido

No parlamento

Minha masculinidade foi difícil

Por isso não subo nesse trem

Sem saber aonde vai

Eu não vou mudar pelo marxismo

Que me rechaçou tantas vezes

Não preciso mudar

Sou mais subversivo que vocês

Não vou mudar somente

Pelos pobres pelos ricos

Ou outro cachorro com esse osso

Tampouco porque o capitalismo é injusto

Em Nova Iorque as bichas de beijam na rua

Mas esta parte deixo para você

Que tanto se interessa

Que a revolução não se apodreça completamente

A vocês entrego esta mensagem

E não é por mim

Eu estou velho

E sua utopia é para as gerações futuras

Há tantas crianças que vão nascer com a asinha quebrada

E eu quero que voem companheiro

Que sua revolução

Dê a eles um pedaço de céu vermelho

Para que possam voar

_________________

* Pedro Lemebel (chileno, 1955) é ensaísta, cronista e romancista. Conhecido por sua crítica ao autoritarismo e suas representações humorísticas da cultura popular chilena, a partir de uma perspectiva não convencional.


[1] Este texto foi lido como intervenção em um ato político da esquerda em setembro de 1986, em Santiago, Chile. Leia o poema original aqui: http://lemebel.blogspot.com.br/2005/11/manifiesto-hablo-por-mi-diferencia.html

 

[2] Apesar de Sidario ser um nome próprio muito comum no Chile, o autor o usa como substantivo para denominar clínicas para tratamento de soropositivos. Cf.: livro de crônicas de Pedro Lemebel chamado “Loco afán: crónicas de sidariorio”, com textos que tratam, sobretudo, da marginalização de travestis e AIDS.

[3] Casas onde se cantam tonadillas. O termo alude à cantora tonadillera do século XVIII Maria Antónia Fernández, cujo apelido era Caramba.

[4] No original “buena-onda”, um trocadilho: alegre/ fresco.

[5] Prato típico chileno com diversos tipos de carne e frutos do mar, naturalmente no poema se trata de um trocadilho.

[6] CNI – Central Nacional de Informaciones de Chile – foi um organismo de inteligência do regime militar chileno. Criada em 1977, foi responsável por inúmeros casos de infiltração política, assassinatos, sequestros e tortura aos opositores do regime, além de estar relacionada ao roubo de banco e o tráfico de drogas e armas. Foi dissolvida em 1990, pouco antes do retorno da democracia. Muitos de seus agentes então foram realocados em outros cargos públicos, inclusive de segurança.

[7] Time de futebol chileno.

_________________________________________

– Tradução de Nina Rizzi, especial para a Revista Ellenismos, 27: des-construindo o gênero.

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