Um poema de Cristina Peri Rossi

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PARA QUE SERVE A LEITURA

 
Me chamam de um editorial
e me pedem que escreva
cinco folhas sobre a necessidade da leitura
 
Não pagam muito bem
e quem poderia pagar bem por um tema desses?
mas de qualquer maneira
preciso do dinheiro
 
assim que ligo meu computador começo a pensar
sobre a necessidade da leitura
mas não me ocorre nada
 
é algo que seguramente sabia quando era jovem
e lia sem parar
lia na Biblioteca Nacional
e nas bibliotecas públicas
 
lia nos cafés
e nas consultas ao dentista
 
lia no ônibus e no metrô
 
sempre andava olhando os livros
 
e passava as tardes nos sebos
até ficar sem um tostão nos bolsos
 
tinha que voltar para casa a pé
 
por ter comprado um Saroyan ou uma Virginia Woolf
 
Então os livros pareciam a coisa mais importante da vida
 
fundamentais
 
eu não tinha sapatos novos
mas não me faltava um Faulkner ou um Onetti
uma Katherine Mansfield ou uma Juana de Ibarbourou
 
hoje os jovens estão nas discotecas
não nas bibliotecas
 
eu fiz uma bela coleção de livros
ocupavam toda a casa
 
tinham livros em toda parte
menos no banheiro
 
que é o lugar onde estão os livros
da gente que não lê
 
as vezes tinha que seguir durante muito tempo
as pegadas de um livro que tinha saído no México
ou em Paris
 
uma longa pesquisa até consegui-lo
 
Nem todos valiam a pena
é verdade
mas poucas vezes me enganei
tive meus Pavese meus Salinger meus Sartre meus Heidegger
meus Saroyan meus Michaux meus Camus meus Baudelaire
meus Neruda meus Vallejo meus Huidobro
para não falar dos Cortázar ou dos Borges
sempre andava com anotações nos bolsos
dos livros que queria ler e não encontrava
ali andavam os Pedro Salinas e os Ambrose Bierce
a infame turba de Dante
mas agora não saberia dizer pra que maldita coisa
serve ter lido tudo isso
 
mais que para saber que a vida é triste
 
coisa que poderia saber sem precisar tê-los lido
 
Depois de cinco horas eu ainda não tinha escrito
uma só linha
assim que comecei a escrever esse poema
Chamei os do editorial
e disse creio que a única coisa para que serve
a leitura
é para escrever poemas
 
não posso dizer mais que isso
 
então me disseram que um poema não servia,
que precisavam de outra coisa.
 
– Cristina Peri Rossi; trad. Nina Rizzi
_____________________
 
PARA QUÉ SIRVE LA LECTURA
 
Me llaman de una editorial
y me piden que escriba
cinco folios sobre la necesidad de la lectura
 
No pagan muy bien
¿quién podría pagar bien por un tema así?
pero de todos modos
necesito el dinero
 
así que enciendo el ordenador y me pongo a pensar
sobre la necesidad de la lectura
pero no se me ocurre nada
 
es algo que seguramente sabía cuando era joven
y leía sin parar
leía en la Biblioteca Nacional
y en las bibliotecas públicas
 
leía en las cafeterías
y en la consulta del dentista
 
leía en el autobús y en el metro
 
siempre andaba mirando libros
 
y me pasaba las tardes en las librerías de usados
hasta quedarme sin un duro en el bolsillo
 
tenía que volver a pie a casa
 
por haberme comprado un Saroyan o una Virginia Woolf
 
Entonces los libros parecían la cosa más importante de la vida
 
fundamental
 
y no tenía zapatos nuevos
pero no me faltaba un Faulkner o un Onetti
una Katherine Mansfield o una Juana de Ibarbourou
 
 
ahora la gente joven está en las discotecas
no en las bibliotecas
 
yo me hice una buena colección de libros
ocupaban toda la casa
 
había libros en todas partes
menos en el retrete
 
que es el lugar donde están los libros
de la gente que no lee
 
a veces tenía que seguirle durante mucho tiempo
las huellas a un libro que había salido en México
o en París
 
una larga pesquisa hasta conseguirlo
 
No todos valían la pena
es verdad
pero pocas veces me equivoqué
tuve mis Pavese mis Salinger mis Sartre mis Heidegger
mis Saroyan mis Michaux mis Camus mis Baudelaire
mis Neruda mis Vallejo mis Huidobro
para no hablar de los Cortázar o de los Borges
siempre andaba con papelitos en los bolsillos
con los libros que quería leer y no encontraba
por allí andaban los Pedro Salinas y los Ambrose Bierce
la infame turba de Dante
 
pero ahora no sabía decir para qué maldita cosa
servía haber leído todo eso
 
más que para saber que la vida es triste
 
cosa que hubiera podido saber sin necesidad de leerlos
 
Cuando habían pasado cinco horas yo todavía no había escrito
una sola línea
así que me puse a escribir este poema
Llamé a los de la editorial
y les dije creo que para lo único que sirve
la lectura
es para escribir poemas
 
no puedo decirles más que eso
 
entonces me dijeron que un poema no servía,
que necesitaban otra cosa.
*
 
 – Cristina Peri Rossi (Montevideo, Uruguay, 1941), IN: Playstation. Editorial Visor, 2009
*
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One thought on “Um poema de Cristina Peri Rossi

  1. Belíssimo. Profundo em sentido para os que sabem tanto da gratidão à literatura, que nem saberiam dizer exatamente o quê.
    Beijo, Nina.

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