Torna Zéfiro!

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METAPOEMA
Ottavio Rinuccini (italiano, 1562-1621)

Zefiro torna, e di soavi accenti
l’aer fa grato e ‘l pie discioglie a l’onde,
e mormorando tra le verdi fronde,
fa danzar al bel suon su ‘l prato i fiori.

Inghirlandato il crin Fillide e Clori
note tempran d’amor care e gioconde;
e da monti e da valli ime e profonde
raddoppian l’armonia gli antri canori.

Sorge più vaga in ciel l’aurora, e ‘l sole
sparge più luci d’or: più puro argento
fregia di Teti il bel ceruleo manto.

Sol io, per selve abbandonate e sole,
l’ardor di due begli occhi e ‘l mio tormento,
come vuol mia ventura, hor piango hor canto.

O poema de Rinuccini é um metaplágio aos soneto de Petrarca ‘Torna Zéfiro e o bom tempo traz de volta’ – n º 310 no Cancioneiro -, aparece no conjunto de Monteverdi em seu sexto livro de 1614; assim como alude às ninfas. Um poema prontinho para música, hm? e para nossa metatradução, ora dunque 

TORNA ZÉFIRO
Metatradução de Nina Rizzi

Torna, Zéfiro, com palavras gentis e acentos doces
O ar agradecido se derrete nas ondas,
Murmura entre a verde ramagem,
Faz sua dança ao som das flores na campina.

Phyllis e Chloris, com guirlandas no rosto
Soltam notas alegres e doces como o amor
E das montanhas e vales profundos
Me rodopia o eco sonoro e harmônico das cavernas.

Levanta-se nas incertezas do céu da aurora
O sol a espalhar luzes de ouro ou prata pura
Enquanto Thétis ostenta seu manto cerúleo.

E eu, vagando abandonado à floresta e ao sol
Ardo ao brilho de dois olhos belos, o meu tormento,
Assim como minha ventura, eu choro, eu canto.

 

OUÇA: ‘Zefiro torna e di soavi accenti’, SV 251, madrigal para dois tenores com baixo contínuo (1632); com os tenores Jean-Paul Fouchécourt e Mark Padmore, conduzido por William Christie. AQUI: https://www.youtube.com/watch?v=85tCzdRt6UE

ZEFIRO QUEEEM???

Zéfiro, o vento Oeste, era irmão de Bóreas e habitava na Trácia. A lenda descreve-o como um vento primitivamente violento, que destruía tudo com o seu sopro indomável: arrasava plantações, provocava naufrágios, causava grandes danos aos homens mas uma grande paixão o fêz mudar. 

A súbita paixão de Zéfiro por Clóris – chamada de Flora pelos romanos – transformaou o caráter mitológico do vento dando-lhe uma versão benéfica. Clóris era a rainha da primavera e era quem espalhava a beleza das flores ao mundo, dando-lhes as cores e o perfume. O contraste com Zéfiro, o vento que destruia a beleza das flores, fêz com que Cloris o rejeitasse.

Mas o amor de Zéfiro era sincero, pleno e construtivo. Para conquistar Clóris, ele transformou a sua personalidade tempestuosa e destrutiva, tornando-se um vento suave que soprava lentamente para não danificar a beleza criada por sua amada. Representado na forma de um jovem com asas que anunciava a primavera e o renascer das plantas, Zéfiro e Clóris tiveram um filho, Carpo – o fruto. 
*

[IMAGEM: “O Nascimento de Vênus (detalhe)”, de Sandro Botticelli]

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