ALEJANDRA PIZARNIK, BETTINE VON ARNIN E CAROLINE GUNDERODE

Bettine Arnin e Caroline Gunderode, colagem.

 
CAROLINE DE GUNDERODE
En nostalgique je vagabondais
par l’infini
C. de G.
A mão da apaixonada do vento
acaricia o rosto do ausente.
A alucinada com sua ‘maleta de pele de
                          pássaro’
foi de si mesma com uma navalha na memória.
A que foi devorada pelo espelho
Entra em um cofre de cinzas
E acalma as feras do esquecimento.
A Enrique Molina
Tradução de Nina Rizzi
CAROLINE DE GUNDERODE
En nostalgique je vagabondais
par l’infini
C. de G.
La mano de la enamorada del viento
acaricia la cara del ausente.
La alucinada con su <maleta de piel de
pájaro>
huye de sí misma con un cuchillo en la memoria.
La que fue devorada por el espejo
entra en un cofre de cenizas
y apacigua a las bestias del olvido.
A Enrique Molina
– Alejandra Pizarnik, IN:  “Otros poemas”, poemas do “Arquivo Pizarnik”, da Universidade de Princeton, e que não haviam sido incluídos em antologias ou obras anteriores da autora.
BETTINE VON ARNIN E CAROLINE GUNDERODE
Elisabeth Magdalena Catharina Ludovica Brentano, conhecida como Bettine von Arnim, foi uma escritora alemã, importante representante do romantismo. Em 1805, esta jovem escritora alemã correspondia-se com Caroline Gunderode, nascida como Maximiliane de Friederike Caroline Louise Günderrode, poetisa, e uma das mais enigmáticas figuras do romantismo alemão. Bettine escrevia a Caroline, uma mulher com mais 8 ou 10 anos do que ela:
‘Se não existisses, o que seria o mundo para mim? Sou como morta se não me pedires que me levante e viva continuamente contigo. Tenho a certeza que a minha vida acorda apenas quando me chamas e que a minha vida morrerá se não puder continuar a crescer em ti. Sim, sei, a minha vida é insegura; sem o teu amor, no qual está plantada, a minha vida nunca florirá.’
Caroline correspondia à sua paixão e necessidade, declarando: ‘Tu és o meu raio de sol que me aquece, enquanto que em todo o outro lado a geada cai sobre mim.’
A correspondência volumosa entre estas duas mulheres sugere um caso amoroso de grande paixão, no qual elas ofereceram uma à outra não apenas um afeto intenso, mas também apoio emocional e estímulo intelectual. Como muitas outras mulheres do seu tempo, noutros países, Bettine e Caroline viam-se a si próprias como “amigas românticas”.
Apesar da grandeza do seu amor, Bettine e Caroline não viveram juntas. Poucas eram as mulheres que o faziam nos princípios do século XIX, quando não havia praticamente oportunidade de auto-suficiência econômica para as mulheres de classe média e alta. Esperava-se destas que casassem ou que entrassem para um convento ou outro retiro feminino semelhante. Caroline Gunderode, filha de uma viúva com vários outros filhos, escolheu este último caminho, tornando-se cônega da sua ordem religiosa.
As duas mulheres poderiam, é claro, ter fugido juntas como tinham feito na geração anterior na Inglaterra duas lésbicas, Sarah Ponsonby e Eleanor Butler, as ‘Senhoras de Llangollen’, mas talvez não tenham podido, ou não tenham querido arriscar a fúria de amigos e família que as ‘Senhoras de Llangollen’ tiveram de suportar. Se Bettine e Caroline fossem das classes mais baixas, uma delas poderia ter envergado roupas de homem, e obtido trabalho manual sob esse disfarce, e as duas poderiam ter passado por marido e mulher.
Mas mudar de classe, no início do século 19, era ainda mais difícil do que mudar de gênero. Além disso, Bettine e Caroline poderiam ter tido conhecimento do caso de uma outra alemã, Catarina Margarethe Linck, queimada na fogueira em 1721 por ter tentado passar por homem e por ter casado com outra mulher. Mas apesar de não terem passado a vida juntas, a sua correspondência indica que, como muitas outras “amigas românticas” da época, foram amantes em todos os sentidos exceto talvez o carnal, é muito pouco provável que tivessem posto essa experiência por escrito, mesmo que a tivessem tido.
Para nós, já no século XXI, poderá parecer incrível que duas mulheres possam ter estado tão apaixonadas sem nunca terem referido a este amor enquanto lésbicas, ou o seu receio de serem descobertas, ou o significado político do seu envolvimento uma com a outra. Contudo, tal falta de percepção era possível antes do advento dos sexólogos em finais do século XIX, quando informaram o mundo da existência de enormes quantidades de mulheres que amavam outras mulheres, de maneira que ultrapassavam o afeto entre irmãs e que semelhante amor era mórbido.
IN: – FADERMAN, Lillian, ERIKSSON, Brigitte. Lesbians in Germany. Naiad Press, 1990 [tradução e adaptação de Lara Lunna].
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