Alejandra Vive!

Alejandra Pizarnik, vestida de Hilda la Polígrafa, junto a Arturo Carrera.

Alejandra Pizarnik vestida de Hilda la Polígrafa, com Arturo Carrera

 

Bar Florida, 22 de agosto [1955], 14h

[…] Quando ia pra a escola, um sopro de esperança me inundou. Me vi caminhando, sentindo, olhando. E disse a mim mesma: Sou feliz porque estou viva! Sou feliz de poder caminhar e ir pra onde quero! Sou feliz porque não estou morta, porque sou jovem, porque criarei beleza, porque devo muito à vida, porque sinto que algo muito grande me chama!

Por que não me acomodo num lugarzinho tranquilo e me caso e tenho filhos e vou ao cinema, à uma confeitaria, ao teatro? Por quê sofro e me martirizo com os espectros de minha fantasia? Por quê insisto no chamado? Por quê faço análise? Por quê não me esqueço da minha alma e não espremo o lencinho úmido lendo Corpos e almas? Por quê não me visto com elegância e passeio por Santa Fé de braços com meu namorado? Ah! Sei que a vida é muito breve. Sei que não sou eterna. Mas, na realidade, não vejo a morte. Vejo ela distante. Digo quarenta anos, mas não os vejo. Vejo um espaço imenso. Vejo milhares de dias. Sei que há tempo. Sei que tenho tempo. Sei que amo minha alma. Me amo. Amo meu corpo e o beijaria porque é meu. Amo meu rosto tão desconhecido e estranho. Amo minhas mãos infantis. Amo minha letra tão clara. (Que estranho que minha letra seja legível!)

É muito tarde. Estou excitada. Desejo um corpo junto ao meu. Qualquer um! Qualquer sexo, qualquer idade. Isso é o de menos! Basta um corpo a quem tocar e que me toque. Meu sangue galopa! Ah! Desejo fervente. Me dissolvo em desejos eróticos. Nada de amor. Não. Nada disso. Sim! O que eu queria era viver minha vida diurna entre livros e papéis e passar as noites junto a um corpo. Esse é meu ideal. É lascivo? É luxurioso? É estúpido? É impossível? É meu!!! E isso basta! […]”

Texto: Diário de Alejandra Pizarnik; Tradução de Nina Rizzi

_______________

 

“[…] Cuando iba camino hacia la escuela, un soplo de esperanza me inundó. Me vi caminando, sintiendo, mirando. Y me dije: ¡Soy feliz porque estoy viva! ¡Soy feliz de poder caminar y desplazarme hacia donde quiero! ¡Soy feliz porque no estoy muerta, porque soy joven, porque crearé belleza, porque debo a la vida mucho, porque siento que me llama algo muy grande!

¿Por qué no me ubico en un lugarcito tranquilo y me caso y tengo hijos y voy al cine, a una confitería, al teatro? ¿Por qué sufro y me martirizo con los espectros de mi fantasía? ¿Por qué insito en el llamado? ¿Por qué me analizo? ¿Por qué no me olvido de mi alma y no estrujo el pañuelito húmedo leyendo Cuerpos y almas? ¿Por qué no me visto con elegancia y paseo por Santa Fe del brazo de mi novio? ¡Ah! Sé que la vida es muy breve. Sé que no soy eterna. Pero, en realidad, no veo la muerte. La veo lejana. Digo cuarenta años pero no los veo. Veo un espacio inmenso. Veo millares de días. Sé que hay tiempo. Sé que tengo tiempo. Sé que amo mi alma. Me amo a mí. Amo mi cuerpo y lo besaría todo porque es mío. Amo mi rostro tan desconocido y extraño. Amo mis ojos sorprendentes. Amo mis manos infantiles. Amo mi letra tan clara. (¡Qué extraño que mi letra sea legible!)

Es muy tarde. Estoy excitada. Deseo un cuerpo junto al mío. ¡Cualquiera! Cualquier sexo, cualquier edad. ¡Eso es lo de menos! Basta un cuerpo a quien tocar y que me toque. ¡Mi sangre galopa! ¡Ah! Deseo ferviente. Me disuelvo en deseos eróticos. Nada de amor. No. Nada de eso. ¡Sí! Lo que yo quisiera es vivir mi vida diurna entre libros y papeles y pasar las noches junto a un cuerpo. Ése es mi ideal. ¿Es lascivo? ¿Es lujurioso? ¿Es estúpido? ¿Es imposible? ¡¡¡Es mío!!! Y con eso basta.

***

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Alejandra e o Mar

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Alejandra Pizarnik e amigos (não identificados) na praia.

1
O mar fez cosquinhas numa mulher que saiu gritando: “Encontrei uma fantasma! Encontrei um fantasma!

2
As ondas flertam com o sol… mas os molhes observam e depois comentam, com o grande escândalo de um velho polvo.

3
O mar queria arrancar meu maiô para me tocar os seios; eu não deixei porque ainda não existe “confiança” entre nós.

4
Uma criança chorava porque a onda o mordeu; ela, de longe, sorria travessa…

5
O mar não sabe de onde vem nem pra onde vai, apesar das mil teorias a respeito.

6
Essa onda pisou a sombra de um homem, que fugiu envergonhado.

7
O mar gritou de alegria quando um pássaro de papel encarnado pisou sua espuma.

8
O mar assina com seu pseudônimo [falta texto].

9
Todos os anos o mar realiza um ato de alegria. A causa: a possessão de sua amada Alfonsina Storni.

10
Quando olho o mar, o sol sente ciúmes e me aperta os olhos.

11
Pensei que era uma onda acendendo um cigarro: depois vi o barco.

12
O mar se enroscou no corset de uma mulher, enquanto as ondas morriam de rir.

13
O salva-vidas é o brinco dessa onda namoradeira.

14
As ondas lutam no crepúsculo, cansadas, cheias de sonho.

15
Uma onda arrastou um sapato velho. Um senhor o colocou e disse “obrigado”. A onda estendeu a mão à espera da “gorjeta”.

16
Quando o atleta entrou no mar, uma onda, puritana, abaixou sua calça.

17
Comovia aquela ondinha que tinha medo de saltar.

18
O mar esfrega seus olhos todas as manhãs, quando o barco toma café com leite, e os cassetetes [ilegível] e se maquiam com geleia.

19
Nos carnavais, o mar é rebaixado à categoria de objeto: o viram e o jogam sobre os corpos, e ele se envergonha desses gritos de terror das mulheres gordas.

20
Uma onda se suicidou ao ver seu retrato tremulando [falta texto].

 

Texto: Diario de Alejandra Pizarnik; Tradução de Nina Rizzi

______________

1
El mar le hizo cosquillas a una mujer que salió gritando: “¡Encontré un fantasma! ¡Encontré un fantasma!”

2
Las olas flirtean con el sol… pero las escolleras observan y luego lo comentan, con gran escándalo de un viejo pulpo.

3
El mar quería sacarme el traje de baño para tocar mis pechos; yo no lo dejé pues aún no existe “confianza” entre nosotros.

4
Un niño lloraba porque lo mordió una ola; ésta, de lejos, sonreía traviesa…

5
El mar no sabe de dónde viene ni adónde va, a pesar de ls mil teorías al respecto.

6
Esa ola pisó la sombra de un hombre, que huyó avergonzado.

7
El mar gritó de alegría cuando un pájaro de papel rojo le pisó la espuma.

8
El mar firma con su pseudónimo [falta texto].

9
Todos los años el mar realiza un acto de alegría. La causa: la posesión de su amada Alfonsina Storni.

10
Cuando miro el mar, el sol se siente celoso y me oprime los ojos.

11
Pensé que era una ola encendiendo un cigarro: luego vi el barco.

12
El mar se enredó en el corset de una mujer, mientras las olas se morían de risa.

13
El salvavidas es el pendiente de esa ola tan coqueta.

14
Las olas luchan en el crepúsculo, cansadas, llenas de sueño.

15
Una ola arrastró un zapato viejo. Un señor se lo puso y le dijo “gracias”. La ola tendió la mano a la espera de la “propina”.

16
Cuando el atleta entró en el mar, una ola, pudorosa, se bajó la falda.

17
Conmovía aquella olita que tenía miedo de saltar.

18
El mar se restrega los ojos todas las mañanas, cuando el barco toma el café con leche, y las lumas se [ilegible] y se maquillan con mermelada.

19
En los carnavales, el mar es humillado a la categoría de objeto: lo revuelven y tiran sobre los cuerpos, y a él le da vergüenza esos aullidos de terror de las mujeres gordas.

20
Un ola se suicidó al ver su retrato tremolando [falta texto].

***

 

 

Primeira versão pra um poema de Oliverio Girondo

oliverio

 

O PURO NÃO

 

O Não

o não inovável

o não nonato
o nããoo

o não póslodocosmos de impuros zeros nãos que nãoam nãoam nãoam

e nãoam
o plurimono nãoam o mórbido amorfo nããoo

não démono

não deo

sem som sem sexo nem órbita

o rígido inosso nããoo em unisólo amódulo

sem poros já sem nódulo

nem eu nem fossa nem buraco

o macro não nem pó

o não mais nada todo

o puro não

sem não

**

 

 

EL PURO NO

 

El No

el no inóvulo

el no nonato

el noo

el no poslodocosmos de impuros ceros noes que noan noan noan

y nooan

y plurimono noan el morbo amorfo noo

no démono

no deo

sin son sin sexo ni órbita

el yerto inóseo noo en unisolo amódulo

sin poros ya sin nódulo

ni yo ni fosa ni hoyo

el macro no ni polvo

el no más nada todo

el puro no

sin noamódulo

 

 

Alguns poemas de Jorge Luis Navarro Honores

jorge luis navarro honores

 

Instruções para incendiar uma cidade 

 

Ama tua cidade como se fosse teu sangue

mas não tema

as facadas das esquinas

porque inevitavelmente

saberão chegar

à tua carne

ama com raiva seus habitantes

descreva seus movimentos

use seu bloco de notas como atiçador

leve um inventário

de todos os desastres cotidianos

que veja ao passar

compreenda que a solidão e a dor

também se refletem nas vitrines

suas luzes deslumbram

tanto quanto o brilho

que provocam os pisos encerados

dos supermercados

***

 

 

Não vejo revoluções nos olhares dos passageiros deste ônibus

vejo democracias tão partidas como as mãos dos trabalhadores

que acumulam raiva nas garrafas para bebê-las nos assentos traseiros

vejo olhares tão longos como o número de taxas bancárias

deixando nas janelas o vapor dos bailes interrompidos.

 

Entre tanta liberdade — dos mercados ou que seja —

ficamos cada vez mais presos, como perfeita conciliação

de um livro que se queima

a si mesmo.

***

 

Há que se inventar o incêndio de uma cidade que não existe, para sair da alienação da que, sim, existe.

***

 

Estação Constituição, Buenos Aires

 

Toda cidade guarda em suas entranhas

ruas e curvas de outras cidades

aloja pedaços de mar

para nos refrescar

em lugares distantes da costa

deixamos que o calor do vale

toque nossa pele

como longa sucessão de ondas

em algum litoral em pleno inverno

toda cidade contém

os semáforos de Punta Arenas

que piscam na madrugada

pela rua Chiloé

mas nada disso me bastava

se nenhuma cidade contivesse tua mão

me guiando pelas plataformas

da estação Temperley

***

 

Jorge Luis Navarro Honores (Chileno, 1986. Bibliotecário e livreiro, vive em Buenos Aires). Os poemas acima integram seu último livro ‘Instruciones para incendiar una ciudad’.

________________________________

jlna0806161

 

Instruciones para incendiar una ciudad

 

Ama a tu ciudad como si fuera tu sangre
pero no temas
a los cuchillos de las esquinas
porque inevitablemente
sabrán llegar
a tu carne
ama con rabia a sus habitantes
describe sus movimientos
utiliza tu libreta de notas como atizador
lleva un catastro
de todos los desastres cotidianos
que veas al pasar
comprende que la soledad y el dolor
también se reflejan en las vitrinas
sus luces encandilan
al igual que el brillo
que provocan los pisos encerados
de los supermercados.

***

 

No veo revoluciones en las miradas de los pasajeros de este bus
veo democracias tan partidas como la mano de los obreros
que acumulan rabia en las botellas para beberlas en los asientos traseros
veo miradas tan largas como número de cuotas bancarias
dejando en las ventanillas el vaho de los bailes interrumpidos.

Entre tanta libertad –de los mercados o lo que fuera–
quedamos cada vez más presos, como perfecta compaginación
de un libro que se quema
a sí mismo.

***

Hay que inventarse el incendio de una ciudad que no existe, para salir de la alienación de la que sí existe.

***

 

Estación Constitución, Buenos Aires

 

Toda ciudad guarda en sus entrañas

calles y rincones de otras ciudades

aloja trozos del mar

para refrescarnos

en lugares lejanos a la costa

dejamos que el calor del valle

toque nuestra piel

como larga sucesión de olas

en algún litoral en pleno invierno

toda ciudad contiene

los semáforos de Punta Arenas

que parpadean en la madrugada

por calle Chiloé

pero nada de eso me bastaba

si ninguna ciudad contenía tu mano

guiándome por los andenes

de estación Temperley

***

Um poema de Walt Whitman

waltwhitman

 

Nós dois, meninos juntos, apegados

 

NÓS dois, meninos juntos, apegados

Um nunca deixando o outro,

Pra cima e pra baixo nas estradas, ao Norte e Sul fazendo excursões,

Apreciando tudo: o alongamento dos cotovelos, os dedos se apertando,

Abraçados e destemidos, comendo, bebendo, dormindo, amando.

 

Nenhuma lei pode saber mais de nós mesmos: tochas, soldados, ladrões, ameaças;

Avarentos, lacaios, os sacerdotes se alarmam,

Nós: respiramos o ar, a água potável sobre a relva ou a dança da praia-mar.

 

Cidades se desfazem, desprezando com facilidade a felicidade;

Zombamos suas normas, fracos nos perseguem

Cumprimos a nossa incursão – beodos ao largo.

_______________

 

We Two Boys Together Clinging

 

WE two boys together clinging,

One the other never leaving,

Up and down the roads going—North and South excursions making,

Power enjoying, elbows stretching, fingers clutching,

Arm’d and fearless, eating, drinking, sleeping, loving,

No law less than ourselves owning, sailing, soldiering, thieving, threatening,

Misers, menials, priests alarming, air breathing, water drinking, on the turf or the sea-beach dancing,

Cities wrenching, ease scorning, statutes mocking, feebleness chasing,

Fulfilling our foray.

 

– Walt Whitman, Leaves of Grass, 1900

*

Um poema e um chiste de Oliverio Girondo

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TELEGRAMA

 

Você está em sua cama

Eu na minha

Não é a mesma

Estamos fazendo algo errado

*

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ALGUMAS OPINIÕES PREVISTAS

O público: Eu não li; mas segundo dizem os jornais…
A crítica: Não é mal; mas estaria melhor se fosse todo ao contrário.

Um crítico do núcleo duro: É definitivamente mal, e seria tão mal se fosse todo ao contrario.

Una senhora: Eu prefiro La Traviata de Massenet.

Una menina: Pena que não possa dizer que li!
Um literato: As ilustrações estão bem; mas os poemas…

Um caricaturista: O texto não me parece mal. Das ilustrações prefiro não falar.
Um amigo: Sim! É melhor que não falemos.

___________________________

 

ALGUNAS OPINIONES PREVISTAS

El público: Yo no lo he leído; pero según dicen los periódicos…

La crítica: No está mal; pero estaría mejor si fuera todo lo contrario.

Un aristarco: Es definitivamente malo, y sería tan malo si fuese todo lo contrario.

Una señora: Yo prefiero La Traviata de Massenet.

Una niña: ¡Lástima que una no pueda decir que lo ha leído!

Un literato: Las ilustraciones están bien; pero los poemas…

Un dibujante: A mí el texto no me parece mal. De las ilustraciones es preferible no hablar.

Un amigo: ¡Sí! Es preferible que no hablemos.

 

  • Oliverio Girondo

Um poema de Alfonsina Storni

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A INQUIETUDE DA ROSEIRA

 

A roseira em seu inquieto modo de florescer

vai queimando a seiva que alimenta seu ser.

Olha as rosas que caem da roseira:

São tantas que findará desta desgraceira!

Não é adulta a roseira e sua vida impaciente

se consome em dar flores vertiginosamente.

 

[Fortaleza, 2016]

*

 

LA INQUIETUD DEL ROSAL

 

El rosal en su inquieto modo de florecer

va quemando la savia que alimenta su ser.

¡Fijaos en las rosas que caen del rosal:

Tantas son que la planta morirá de este mal!

El rosal no es adulto y su vida impaciente

se consume al dar flores precipitadamente.

 
[Mar del Plata, 1916]

 

 

 

 

Um poema de Óscar Hahn

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Anotações no diário de Rimbaud

 

  1. (África, 1880 – 1891)

 

Eu cheguei até aqui navegando pelo Mar Vermelho

depois de dar à morte ao indesejável

 

Tinha 20 anos e era uma das virgens loucas

 

Aden é a cratera de um vulcão extinto

sem uma folha de grama sem uma gota de água

 

Não há nada para ver ou tocar exceto lava e cinzas

 

Montei meu cavalo e atravessei as areias da Somália

Agora estou em Harar a cidade proibida

 

Levei rifles e munições para o rei de Soa

mas não me pagou o combinado o maldito bastardo

 

Apareceram varizes em minha perna

Doem muito e não me deixam dormir

 

Enquanto eu fazia a barba no espelho

vi que o indesejável estava atrás de mim

com os cabelos tingidos e sobrancelhas arrancadas

 

Me virei de uma vez, mas não havia ninguém

 

No deserto as miragens zombam de nós

Eu caçoo das miragens

 

Me dizem que a perna gangrenou

que tenho muita febre que devo sair daqui

 

Os nativos fizeram uma liteira de lona

e me carregaram os 300 quilômetros

que separam as montanhas de Harar e o porto de Zeila

 

 

  1. (Hospital de Marselha 1891)

 

Volto ao meu país após 16 anos de ausência

Pareço um esqueleto e as pessoas se assustam comigo

 

As mulheres cuidam dos ferozes inválidos

que retornam de lugares tórridos

 

Hoje me amputaram a perna direita

 

A vida é um horror interminável

Não sei para que nos esforçamos para continuar vivendo

 

O Marido Infernal apareceu para mim em um sonho

Tinha um rosário entre os dedos

 

Três horas mais tarde Deus foi negado

e suas 98 feridas começaram a sangrar

 

Eu tentei andar com muletas

mas não consegui avançar nenhum centímetro

 

Eu que atravessei montanhas e desertos

rios e mares cidades e reinos

e a quem chamavam o pés de vento

 

Os sacerdotes não querem me dar a comunhão

Temem que me engasgue com a carne de Cristo

 

Da minha cama eu vi a silhueta do indesejável

 

Vinha caminhando com a perna que me cortaram

e trazia um barco de papel na mão

 

Você está morto eu disse furioso

E ele disse: “Eu estou vivo o morto é você

 

Coloque o barco de papel nessa poça d’água

e chegará aonde você nunca chegou”

 

– Tradução Nina Rizzi

***

 

Anotaciones en el diario de Rimbaud

 

  1. (África, 1880 – 1891)

 

He llegado hasta aquí navegando por el Mar Rojo

después de darle muerte al indeseable

 

Tenía 20 años y era una de las vírgenes locas

 

Adén es el cráter de un volcán apagado

sin una brizna de pasto sin una gota de agua

 

No hay nada que ver o tocar excepto lava y ceniza

 

Monté en mi caballo y atravesé las arenas de Somalia

Ahora me encuentro en Harar la ciudad prohibida

 

Le llevé rifles y municiones al rey de Soa

pero no me pagó lo convenido el muy cabrón

 

Me han brotado várices en la pierna

Me duelen mucho y no me dejan dormir

 

Mientras me afeitaba frente al espejo

vi que el indeseable estaba detrás de mí

con el pelo teñido y las cejas depiladas

 

Me di vuelta de golpe pero no había nadie

 

En el desierto los espejismos se burlan de nosotros

Yo me burlo de los espejismos

 

Me dicen que la pierna se ha gangrenado

que tengo mucha fiebre que debo salir de aquí

 

Los nativos hicieron una litera de lona

y me cargaron los 300 kilómetros

que separan las montañas de Harar y el puerto de Zeila

 

  1. (Hospital de Marsella 1891)

 

Vuelvo a mi país después de 16 años de ausencia

Parezco un esqueleto y la gente se asusta de mí

 

Las mujeres cuidan a los feroces inválidos

que retornan de lugares tórridos

 

Hoy me amputaron la pierna derecha

 

La vida es un horror interminable

No sé para qué nos empeñamos en seguir viviendo

 

El Esposo Infernal se me apareció en un sueño

Tenía un rosario entre los dedos

 

Tres horas más tarde Dios fue negado

y sus 98 heridas empezaron a sangrar

 

He tratado de caminar con muletas

pero no he podido avanzar ni un centímetro

 

Yo que atravesé montañas y desiertos

ríos y mares ciudades y reinos

y a quien llamaban el suelas de viento

 

Los curas no quieren darme la comunión

Temen que me atragante con la carne de Cristo

 

Desde mi cama vi la silueta del indeseable

 

Venía caminando con la pierna que me cortaron

y traía un barco de papel en la mano

 

Tú estás muerto le dije furioso

Y él dijo: “Yo estoy vivo el muerto eres tú

 

Pondrás el barco de papel en ese charco de agua

y llegarás a donde nunca has llegado”

 

– Óscar Hahn, ‘Apariciones Profanas’, Hiperión/ 2002

Giorgio Agamben: um poema e um ensaio

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Clareiras

                                                            Para Martin Heidegger

 

Coros do olhar,

recua!

Não quero mais reinar.

Agora, fogo, agora:

Estou pronto.

Qual máscara terei que encontrar?

Eu quero.

(1967)

**

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 A QUEM SE DIRIGE A POESIA?

 

A quem se dirige a poesia? Só é possível responder esta pergunta se se entende que o destinatário do poema não é uma pessoa real, mas uma exigência.

Uma exigência nunca coincide com as categorias modais com as quais estamos familiarizados. O objeto da exigência não é nem necessário, nem contingente, não é possível ou impossível.

Pode-se dizer, em contrapartida, que uma coisa ‘exige’ (‘exacts’) ou demanda outra, quando sucede que, se a primeira coisa é, a outra coisa também tem que ser, sem que necessariamente a primeira esteja implicando logicamente a segunda, ou forçando-a a existir no âmbito dos feitos. Uma exigência é simplesmente algo além de toda necessidade e de toda possibilidade. É similar a uma promessa que só pode ser cumprida por aquele que a recebe.

Benjamin escreveu alguma vez quer a vida do Píncipe Myshkin exige permanecer inesquecível, mesmo quando todos a esquecem. Da mesma forma, o poema exige ser lido, mesmo quando ninguém o leia.

Isto mesmo pode se expressar dizendo que na medida em que a poesia demanda ser lida, deve permanecer ilegível. Estritamente falando, não há um leitor de poesia.

É isto talvez o que Cesar Vallejo tinha em mente quando, ao definir a intenção última e a dedicatória de quase toda sua poesia, não encontrou outras palavras mais que dizer para o analfabeto a quem escrevo. É importante nos determos na formulação aparentemente redundante “para o analfabeto a quem escrevo”. Aqui “para” significa menos “para” que em “lugar de”; tal como Primo Levi disse que ele dava testemunho por – isto é, “em lugar de” – aqueles chamados Muselmanner que, no jargão de Auschwitz nunca puderam dar testemunho.

O verdadeiro destinatário da poesia é aquele que não está habilitado para lê-la. Mas isto também significa que o livro, que é destinado a quem nunca o lerá – o iletrado – foi escrito por uma mão que, em certo sentido, não sabe ler e que é, portanto, uma mãe iletrada. A poesia é aquilo que regressa a escritura até o lugar de ilegibilidade de onde provém, para onde ela segue se dirigindo.

(2015)

Um poema de Donato Ndongo Bidyogo

Donatoenterlojosh

 

IMAGEM

 

Antiquíssima

a mãe noite

povoou-se de Água

e Sêmen

Filhos do deus Mistério.

(Escrito no entardecer,

meio-dia, grito e água,

caminho

sobre o mar

até a contínua Alvorada).

 

Elevamos-nos

cósmicos

sobre as rochas

compactas

sons em leve esgar

ansiosos de preamar.

 

Em místico navio

lento e belo

te manifestas

até mim

em simples imagem.

 

Esculpir tua pedra

alma de vento

cavidades do mar

sem tocar-te, insensivelmente,

como nosso silêncio

que o tempo sela.

Como no declinar de cada dia

a hora esconde em nosso esquecimento

teu passo, Mulher, teu rosto, a maravilha.

 

1969/ 2016

**

 

IMAGEN

 

Antiquísima

la madre noche

se pobló de Agua

y Semen

Hijos del dios Misterio.

(Escrito en el atardecer,

mediodía, grito y agua,

camino

sobre el mar

hacia la continua Alba).

 

Nos alzamos

cósmicos

sobre las rocas

compactas

sonidos en leve mueca

ansiosos de pleamar.

 

En místico bajel

lento y bello

te manifiestas

hacia mi

en sencilla imagen.

 

Esculpir tu piedra

alma del viento

oquedades del mar

sin tocarte, insensiblemente,

cuan nuestro silencio

que el tiempo sella.

Como en el declinar de cada dia

la hora esconde en nuestro olvido

tu paso, Mujer, tu rostro, la maravilla.

 

1969