Primeira versão pra um poema de Oliverio Girondo

oliverio

 

O PURO NÃO

 

O Não

o não inovável

o não nonato
o nããoo

o não póslodocosmos de impuros zeros nãos que nãoam nãoam nãoam

e nãoam
o plurimono nãoam o mórbido amorfo nããoo

não démono

não deo

sem som sem sexo nem órbita

o rígido inosso nããoo em unisólo amódulo

sem poros já sem nódulo

nem eu nem fossa nem buraco

o macro não nem pó

o não mais nada todo

o puro não

sem não

**

 

 

EL PURO NO

 

El No

el no inóvulo

el no nonato

el noo

el no poslodocosmos de impuros ceros noes que noan noan noan

y nooan

y plurimono noan el morbo amorfo noo

no démono

no deo

sin son sin sexo ni órbita

el yerto inóseo noo en unisolo amódulo

sin poros ya sin nódulo

ni yo ni fosa ni hoyo

el macro no ni polvo

el no más nada todo

el puro no

sin noamódulo

 

 

Alguns poemas de Jorge Luis Navarro Honores

jorge luis navarro honores

 

Instruções para incendiar uma cidade 

 

Ama tua cidade como se fosse teu sangue

mas não tema

as facadas das esquinas

porque inevitavelmente

saberão chegar

à tua carne

ama com raiva seus habitantes

descreva seus movimentos

use seu bloco de notas como atiçador

leve um inventário

de todos os desastres cotidianos

que veja ao passar

compreenda que a solidão e a dor

também se refletem nas vitrines

suas luzes deslumbram

tanto quanto o brilho

que provocam os pisos encerados

dos supermercados

***

 

 

Não vejo revoluções nos olhares dos passageiros deste ônibus

vejo democracias tão partidas como as mãos dos trabalhadores

que acumulam raiva nas garrafas para bebê-las nos assentos traseiros

vejo olhares tão longos como o número de taxas bancárias

deixando nas janelas o vapor dos bailes interrompidos.

 

Entre tanta liberdade — dos mercados ou que seja —

ficamos cada vez mais presos, como perfeita conciliação

de um livro que se queima

a si mesmo.

***

 

Há que se inventar o incêndio de uma cidade que não existe, para sair da alienação da que, sim, existe.

***

 

Estação Constituição, Buenos Aires

 

Toda cidade guarda em suas entranhas

ruas e curvas de outras cidades

aloja pedaços de mar

para nos refrescar

em lugares distantes da costa

deixamos que o calor do vale

toque nossa pele

como longa sucessão de ondas

em algum litoral em pleno inverno

toda cidade contém

os semáforos de Punta Arenas

que piscam na madrugada

pela rua Chiloé

mas nada disso me bastava

se nenhuma cidade contivesse tua mão

me guiando pelas plataformas

da estação Temperley

***

 

Jorge Luis Navarro Honores (Chileno, 1986. Bibliotecário e livreiro, vive em Buenos Aires). Os poemas acima integram seu último livro ‘Instruciones para incendiar una ciudad’.

________________________________

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Instruciones para incendiar una ciudad

 

Ama a tu ciudad como si fuera tu sangre
pero no temas
a los cuchillos de las esquinas
porque inevitablemente
sabrán llegar
a tu carne
ama con rabia a sus habitantes
describe sus movimientos
utiliza tu libreta de notas como atizador
lleva un catastro
de todos los desastres cotidianos
que veas al pasar
comprende que la soledad y el dolor
también se reflejan en las vitrinas
sus luces encandilan
al igual que el brillo
que provocan los pisos encerados
de los supermercados.

***

 

No veo revoluciones en las miradas de los pasajeros de este bus
veo democracias tan partidas como la mano de los obreros
que acumulan rabia en las botellas para beberlas en los asientos traseros
veo miradas tan largas como número de cuotas bancarias
dejando en las ventanillas el vaho de los bailes interrumpidos.

Entre tanta libertad –de los mercados o lo que fuera–
quedamos cada vez más presos, como perfecta compaginación
de un libro que se quema
a sí mismo.

***

Hay que inventarse el incendio de una ciudad que no existe, para salir de la alienación de la que sí existe.

***

 

Estación Constitución, Buenos Aires

 

Toda ciudad guarda en sus entrañas

calles y rincones de otras ciudades

aloja trozos del mar

para refrescarnos

en lugares lejanos a la costa

dejamos que el calor del valle

toque nuestra piel

como larga sucesión de olas

en algún litoral en pleno invierno

toda ciudad contiene

los semáforos de Punta Arenas

que parpadean en la madrugada

por calle Chiloé

pero nada de eso me bastaba

si ninguna ciudad contenía tu mano

guiándome por los andenes

de estación Temperley

***

Um poema de Walt Whitman

waltwhitman

 

Nós dois, meninos juntos, apegados

 

NÓS dois, meninos juntos, apegados

Um nunca deixando o outro,

Pra cima e pra baixo nas estradas, ao Norte e Sul fazendo excursões,

Apreciando tudo: o alongamento dos cotovelos, os dedos se apertando,

Abraçados e destemidos, comendo, bebendo, dormindo, amando.

 

Nenhuma lei pode saber mais de nós mesmos: tochas, soldados, ladrões, ameaças;

Avarentos, lacaios, os sacerdotes se alarmam,

Nós: respiramos o ar, a água potável sobre a relva ou a dança da praia-mar.

 

Cidades se desfazem, desprezando com facilidade a felicidade;

Zombamos suas normas, fracos nos perseguem

Cumprimos a nossa incursão – beodos ao largo.

_______________

 

We Two Boys Together Clinging

 

WE two boys together clinging,

One the other never leaving,

Up and down the roads going—North and South excursions making,

Power enjoying, elbows stretching, fingers clutching,

Arm’d and fearless, eating, drinking, sleeping, loving,

No law less than ourselves owning, sailing, soldiering, thieving, threatening,

Misers, menials, priests alarming, air breathing, water drinking, on the turf or the sea-beach dancing,

Cities wrenching, ease scorning, statutes mocking, feebleness chasing,

Fulfilling our foray.

 

– Walt Whitman, Leaves of Grass, 1900

*

Um poema e um chiste de Oliverio Girondo

653

 

TELEGRAMA

 

Você está em sua cama

Eu na minha

Não é a mesma

Estamos fazendo algo errado

*

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ALGUMAS OPINIÕES PREVISTAS

O público: Eu não li; mas segundo dizem os jornais…
A crítica: Não é mal; mas estaria melhor se fosse todo ao contrário.

Um crítico do núcleo duro: É definitivamente mal, e seria tão mal se fosse todo ao contrario.

Una senhora: Eu prefiro La Traviata de Massenet.

Una menina: Pena que não possa dizer que li!
Um literato: As ilustrações estão bem; mas os poemas…

Um caricaturista: O texto não me parece mal. Das ilustrações prefiro não falar.
Um amigo: Sim! É melhor que não falemos.

___________________________

 

ALGUNAS OPINIONES PREVISTAS

El público: Yo no lo he leído; pero según dicen los periódicos…

La crítica: No está mal; pero estaría mejor si fuera todo lo contrario.

Un aristarco: Es definitivamente malo, y sería tan malo si fuese todo lo contrario.

Una señora: Yo prefiero La Traviata de Massenet.

Una niña: ¡Lástima que una no pueda decir que lo ha leído!

Un literato: Las ilustraciones están bien; pero los poemas…

Un dibujante: A mí el texto no me parece mal. De las ilustraciones es preferible no hablar.

Un amigo: ¡Sí! Es preferible que no hablemos.

 

  • Oliverio Girondo

Um poema de Alfonsina Storni

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A INQUIETUDE DA ROSEIRA

 

A roseira em seu inquieto modo de florescer

vai queimando a seiva que alimenta seu ser.

Olha as rosas que caem da roseira:

São tantas que findará desta desgraceira!

Não é adulta a roseira e sua vida impaciente

se consome em dar flores vertiginosamente.

 

[Fortaleza, 2016]

*

 

LA INQUIETUD DEL ROSAL

 

El rosal en su inquieto modo de florecer

va quemando la savia que alimenta su ser.

¡Fijaos en las rosas que caen del rosal:

Tantas son que la planta morirá de este mal!

El rosal no es adulto y su vida impaciente

se consume al dar flores precipitadamente.

 
[Mar del Plata, 1916]

 

 

 

 

Um poema de Óscar Hahn

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Anotações no diário de Rimbaud

 

  1. (África, 1880 – 1891)

 

Eu cheguei até aqui navegando pelo Mar Vermelho

depois de dar à morte ao indesejável

 

Tinha 20 anos e era uma das virgens loucas

 

Aden é a cratera de um vulcão extinto

sem uma folha de grama sem uma gota de água

 

Não há nada para ver ou tocar exceto lava e cinzas

 

Montei meu cavalo e atravessei as areias da Somália

Agora estou em Harar a cidade proibida

 

Levei rifles e munições para o rei de Soa

mas não me pagou o combinado o maldito bastardo

 

Apareceram varizes em minha perna

Doem muito e não me deixam dormir

 

Enquanto eu fazia a barba no espelho

vi que o indesejável estava atrás de mim

com os cabelos tingidos e sobrancelhas arrancadas

 

Me virei de uma vez, mas não havia ninguém

 

No deserto as miragens zombam de nós

Eu caçoo das miragens

 

Me dizem que a perna gangrenou

que tenho muita febre que devo sair daqui

 

Os nativos fizeram uma liteira de lona

e me carregaram os 300 quilômetros

que separam as montanhas de Harar e o porto de Zeila

 

 

  1. (Hospital de Marselha 1891)

 

Volto ao meu país após 16 anos de ausência

Pareço um esqueleto e as pessoas se assustam comigo

 

As mulheres cuidam dos ferozes inválidos

que retornam de lugares tórridos

 

Hoje me amputaram a perna direita

 

A vida é um horror interminável

Não sei para que nos esforçamos para continuar vivendo

 

O Marido Infernal apareceu para mim em um sonho

Tinha um rosário entre os dedos

 

Três horas mais tarde Deus foi negado

e suas 98 feridas começaram a sangrar

 

Eu tentei andar com muletas

mas não consegui avançar nenhum centímetro

 

Eu que atravessei montanhas e desertos

rios e mares cidades e reinos

e a quem chamavam o pés de vento

 

Os sacerdotes não querem me dar a comunhão

Temem que me engasgue com a carne de Cristo

 

Da minha cama eu vi a silhueta do indesejável

 

Vinha caminhando com a perna que me cortaram

e trazia um barco de papel na mão

 

Você está morto eu disse furioso

E ele disse: “Eu estou vivo o morto é você

 

Coloque o barco de papel nessa poça d’água

e chegará aonde você nunca chegou”

 

– Tradução Nina Rizzi

***

 

Anotaciones en el diario de Rimbaud

 

  1. (África, 1880 – 1891)

 

He llegado hasta aquí navegando por el Mar Rojo

después de darle muerte al indeseable

 

Tenía 20 años y era una de las vírgenes locas

 

Adén es el cráter de un volcán apagado

sin una brizna de pasto sin una gota de agua

 

No hay nada que ver o tocar excepto lava y ceniza

 

Monté en mi caballo y atravesé las arenas de Somalia

Ahora me encuentro en Harar la ciudad prohibida

 

Le llevé rifles y municiones al rey de Soa

pero no me pagó lo convenido el muy cabrón

 

Me han brotado várices en la pierna

Me duelen mucho y no me dejan dormir

 

Mientras me afeitaba frente al espejo

vi que el indeseable estaba detrás de mí

con el pelo teñido y las cejas depiladas

 

Me di vuelta de golpe pero no había nadie

 

En el desierto los espejismos se burlan de nosotros

Yo me burlo de los espejismos

 

Me dicen que la pierna se ha gangrenado

que tengo mucha fiebre que debo salir de aquí

 

Los nativos hicieron una litera de lona

y me cargaron los 300 kilómetros

que separan las montañas de Harar y el puerto de Zeila

 

  1. (Hospital de Marsella 1891)

 

Vuelvo a mi país después de 16 años de ausencia

Parezco un esqueleto y la gente se asusta de mí

 

Las mujeres cuidan a los feroces inválidos

que retornan de lugares tórridos

 

Hoy me amputaron la pierna derecha

 

La vida es un horror interminable

No sé para qué nos empeñamos en seguir viviendo

 

El Esposo Infernal se me apareció en un sueño

Tenía un rosario entre los dedos

 

Tres horas más tarde Dios fue negado

y sus 98 heridas empezaron a sangrar

 

He tratado de caminar con muletas

pero no he podido avanzar ni un centímetro

 

Yo que atravesé montañas y desiertos

ríos y mares ciudades y reinos

y a quien llamaban el suelas de viento

 

Los curas no quieren darme la comunión

Temen que me atragante con la carne de Cristo

 

Desde mi cama vi la silueta del indeseable

 

Venía caminando con la pierna que me cortaron

y traía un barco de papel en la mano

 

Tú estás muerto le dije furioso

Y él dijo: “Yo estoy vivo el muerto eres tú

 

Pondrás el barco de papel en ese charco de agua

y llegarás a donde nunca has llegado”

 

– Óscar Hahn, ‘Apariciones Profanas’, Hiperión/ 2002

Giorgio Agamben: um poema e um ensaio

agamben-radure-1967

Clareiras

                                                            Para Martin Heidegger

 

Coros do olhar,

recua!

Não quero mais reinar.

Agora, fogo, agora:

Estou pronto.

Qual máscara terei que encontrar?

Eu quero.

(1967)

**

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 A QUEM SE DIRIGE A POESIA?

 

A quem se dirige a poesia? Só é possível responder esta pergunta se se entende que o destinatário do poema não é uma pessoa real, mas uma exigência.

Uma exigência nunca coincide com as categorias modais com as quais estamos familiarizados. O objeto da exigência não é nem necessário, nem contingente, não é possível ou impossível.

Pode-se dizer, em contrapartida, que uma coisa ‘exige’ (‘exacts’) ou demanda outra, quando sucede que, se a primeira coisa é, a outra coisa também tem que ser, sem que necessariamente a primeira esteja implicando logicamente a segunda, ou forçando-a a existir no âmbito dos feitos. Uma exigência é simplesmente algo além de toda necessidade e de toda possibilidade. É similar a uma promessa que só pode ser cumprida por aquele que a recebe.

Benjamin escreveu alguma vez quer a vida do Píncipe Myshkin exige permanecer inesquecível, mesmo quando todos a esquecem. Da mesma forma, o poema exige ser lido, mesmo quando ninguém o leia.

Isto mesmo pode se expressar dizendo que na medida em que a poesia demanda ser lida, deve permanecer ilegível. Estritamente falando, não há um leitor de poesia.

É isto talvez o que Cesar Vallejo tinha em mente quando, ao definir a intenção última e a dedicatória de quase toda sua poesia, não encontrou outras palavras mais que dizer para o analfabeto a quem escrevo. É importante nos determos na formulação aparentemente redundante “para o analfabeto a quem escrevo”. Aqui “para” significa menos “para” que em “lugar de”; tal como Primo Levi disse que ele dava testemunho por – isto é, “em lugar de” – aqueles chamados Muselmanner que, no jargão de Auschwitz nunca puderam dar testemunho.

O verdadeiro destinatário da poesia é aquele que não está habilitado para lê-la. Mas isto também significa que o livro, que é destinado a quem nunca o lerá – o iletrado – foi escrito por uma mão que, em certo sentido, não sabe ler e que é, portanto, uma mãe iletrada. A poesia é aquilo que regressa a escritura até o lugar de ilegibilidade de onde provém, para onde ela segue se dirigindo.

(2015)

Um poema de Donato Ndongo Bidyogo

Donatoenterlojosh

 

IMAGEM

 

Antiquíssima

a mãe noite

povoou-se de Água

e Sêmen

Filhos do deus Mistério.

(Escrito no entardecer,

meio-dia, grito e água,

caminho

sobre o mar

até a contínua Alvorada).

 

Elevamos-nos

cósmicos

sobre as rochas

compactas

sons em leve esgar

ansiosos de preamar.

 

Em místico navio

lento e belo

te manifestas

até mim

em simples imagem.

 

Esculpir tua pedra

alma de vento

cavidades do mar

sem tocar-te, insensivelmente,

como nosso silêncio

que o tempo sela.

Como no declinar de cada dia

a hora esconde em nosso esquecimento

teu passo, Mulher, teu rosto, a maravilha.

 

1969/ 2016

**

 

IMAGEN

 

Antiquísima

la madre noche

se pobló de Agua

y Semen

Hijos del dios Misterio.

(Escrito en el atardecer,

mediodía, grito y agua,

camino

sobre el mar

hacia la continua Alba).

 

Nos alzamos

cósmicos

sobre las rocas

compactas

sonidos en leve mueca

ansiosos de pleamar.

 

En místico bajel

lento y bello

te manifiestas

hacia mi

en sencilla imagen.

 

Esculpir tu piedra

alma del viento

oquedades del mar

sin tocarte, insensiblemente,

cuan nuestro silencio

que el tiempo sella.

Como en el declinar de cada dia

la hora esconde en nuestro olvido

tu paso, Mujer, tu rostro, la maravilla.

 

1969

 

Um poema de Óscar Hahn

premiacion a escritor chileno

Foto: Victor alegria/ La Tercera

 

MORTE DA MINHA MÃE

O Papa está morto
e todos os televisores do mundo
estão mostrando a notícia
Agora vemos o translado do corpo
através dos aposentos do Vaticano
Eu sei que a senhora
gostaria de ter visto tudo isso mamãe
e que iria se emocionar
e que assistiria a transmissão
da sua cama

E os restos do Papa
foram transladados da capela
até a catedral de São Pedro
Mas a senhora
tivemos que baixá-la até o porão do edifício
em uma cadeira de rodas
porque o caixão não cabia no elevador

Nestes momentos
os bilhões de católicos
que existem no mundo
expressam sua dor pela morte do Papa
mas a soma de toda essa dor
não se compara
com a dor que sentiram seus filhos
quando a levantaram da cadeira de rodas
e a colocaram no caixão

O fato de estar me dirigindo à senhora
ainda que não possa me responder
me diz que não está morta
que está em alguma parte do universo
me escutando
porque existir não pode ser algo tão pobre
como viver metido dentro de um corpo
que se faz escombros que se faz cinzas

Lembro-me que quando era criança
e tinha pesadelos com o diabo
corria para a sua cama
e agora às vezes tenho muito medo mamãe
e não quero mais ter medo
quero que todo o universo seja como uma grande cama
em que possa me deitar quando tiver medo
e a senhora esteja ao meu lado ainda que não possa vê-la
**

MUERTE DE MI MADRE

El Papa ha muerto
y todos los televisores del mundo
están mostrando la noticia
Ahora vemos el traslado del cuerpo
a través de los aposentos del Vaticano
Yo sé que a usted
le habría gustado ver todo esto mamá
y que se habría emocionado
y que habría seguido la transmisión
desde su cama

Y los restos del Papa
fueron trasladados desde la capilla
hasta la catedral de San Pedro
Pero a usted
tuvimos que bajarla hasta el sótano del edificio
en una silla de ruedas
porque el ataúd no cabía en el ascensor

En estos momentos
los mil millones de católicos
que hay en el mundo
expresan su dolor por la muerte del Papa
pero la suma de todo ese dolor
no puede compararse
con el dolor que sintieron sus hijos
cuando la levantaron de la silla de ruedas
y la pusieron en el ataúd

El hecho de que me esté dirigiendo a usted
aunque no pueda responderme
me dice que usted no está muerta
que está en alguna parte del universo
escuchándome
porque existir no puede ser algo tan pobre
como vivir metido adentro de un cuerpo
que se hace escombros que se hace cenizas

Recuerdo que cuando era niño
y tenía pesadillas con el diablo
corría a meterme en su cama
y ahora a veces tengo mucho miedo mamá
y no quiero tener más miedo
quiero que todo el universo sea como una gran cama
en la que pueda meterme cuando tenga miedo
y usted esté a mi lado aunque no pueda verla

– In: EN UN ABRIR Y CERRAR DE OJOS, 2006

Alejandra Pizarnik responde -8 perguntas a escritoras, atrizes, mulheres de ciência, das artes, do trabalho social e do jornalismo

8 PERGUNTAS A ESCRITORAS, ATRIZES, MULHERES DE CIÊNCIA, DAS ARTES, DO TRABALHO SOCIAL E DO JORNALISMO[1]

 

  1. Acredita que a mulher, em todos os planos, devem ter os mesmos direitos do homem?

AP – A mulher nunca teve os mesmos direitos que o homem. Deve chegar a tê-los. Não digo somente eu. Rimbaud também o disse: Quando for quebrada a servidão infinita da mulher, quando ela viver para si e por si mesma, quando o homem – até então abominável – lhe tiver dado sua alforria, também ela será poeta! A mulher encontrará o ignoto! Seu mundo de ideias diferirá do nosso? – Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repelentes, deliciosas; nós as tomaremos, as compreenderemos. [Carta de Rimbaud para Paul Demeny, Charleville, 15 de Maio de 1871. Tradução de Ivo Barroso.][2].

Inútil acrescentar que as palavras do poeta formam um raciocínio utópico. É que nada temem tanto, mulheres ou homens, quanto a mudança.

  1. Acredita que a sociedade atual precisa de uma reforma e que será de benefício das mulheres?

AP – Não creio que a sociedade precise atual precise de uma reforma. Creio que precise de uma mudança radical, e é nesse sentido que poderão ser de benefício das mulheres.

  1. Acredita ser necessária a educação sexual?

AP – Claro, já que o sexual é árduo.

  1. Pelo fato de ser mulher encontrou impedimentos em sua carreira? Teve que lutar? Contra quê e contra quem?

AP – A poesia não é uma carreira, é um destino.

Embora ser mulher não me impeça de escrever, creio que vale a pena partir de uma lucidez exasperada. Deste modo, afirmo que ter nascido mulher é uma desgraça, como é ser judeu, ser pobre, ser negro, ser homossexual, ser poeta, ser argentino, etc., etc. Claro é que o importante é aquilo que fazemos com nossas desgraças.

  1. Acredita que as leis que regem o controle de natalidade e o aborto devem estar nas mãos da Igreja e de homens que governam, ou nas das mulheres que, apesar de serem as protagonistas do problema, não tem tido voz nem voto em algo que lhes concerne vitalmente?

AP – Essa pergunta faz referência a um estado de coisas absurdo. Cada um é dono de seu próprio corpo, cada um controla como quer e como pode. É o demônio das baixas proibições quem, amparando-se em mentiras “morais”, puderam em mãos governamentais ou eclesiásticas as leis que regem o aborto. Essas leis são imorais, donas de uma crueldade inaudita. Cabe acrescentar que, para ilustrar, a sugestão de Freud de que aquele que inventar o contraceptivo perfeito ou infalível seria tão importante para a humanidade quanto Jesus Cristo.

  1. É partidária do divórcio?

AP – Acaso é possível não ser?

  1. Qual acredita ser problema mais urgente da mulher?

AP – Os conflitos da mulher não residem em só problema possível de assinalar. Neste caso, e em outros, a ordem segue sendo: “Changer la vie”.

  1. Você está interada da luta da mulher por seus direitos nos séculos XIX e XX? Sabe quais foram os primeiros países a reconhecê-los e até que limites?

AP – Ignoro estes temas.

***

8 PREGUNTAS A ESCRITORAS, ACTRICES, MUJERES DE CIENCIA, DE LAS ARTES, DEL TRABAJO SOCIAL Y DEL PERIODISMO

  1. ¿Cree que la mujer, en todos los planos, ha de tener los mismos derechos que el varón?

La mujer no ha tenido nunca los mismos derechos que el hombre. Debe llegar a tenerlos. No lo digo solamente yo. Rimbaud también lo dijo “Quand sera brisé l’infini servage de la femme, quand elle vivra pour elle et par elle, l’homme -jusqu’ici abominable-, lui ayant donné son renvoi, elle sera poète, elle aussi! La femme trouvera de l’ inconnu. Ses modes d’idées différeront-ils des nôtres?- Elle trouvera des choses étranges, insondables, repoussantes, délicieuses; nous les prendons, nous les comprendrons.” [Carta de Rimbaud a Paul Demeny (Chaleville, 15/V/1871).]

Inútil agregar que las exaltadas palabras del poeta conforman un razonamiento utópico. Es que nada temen tanto, mujeres u hombres, como los cambios.

  1. ¿Cree que la sociedad actual necesita una reforma y que redundará en beneficios de la mujer?

No creo que la sociedad actual necesite una reforma. Creo que necesita un cambio radical, y es en ese sentido que pueden redundar beneficios para la mujer.

  1. ¿Cree necesaria la educación sexual?

Por cierto, puesto que lo sexual es arduo.

  1. Por el hecho de ser mujer, ¿ha encontrado impedimentos en su carrera? ¿Ha tenido que luchar? ¿Contra qué y contra quién?

La poesía no es una carrera; es un destino.

Aunque ser mujer no me impide escribir, creo que vale la pena partir de una lucidez exasperada. De este modo, afirmo que haber nacido mujer es una desgracia, como lo es ser judío, ser pobre, ser negro, ser homosexual, ser poeta, ser argentino, etc. Claro es que lo importante es aquello que hacemos con nuestras desgracias.

  1. ¿Cree que las leyes que rigen el control de natalidad y el aborto deben estar en manos de la Iglesia y de los hombres que gobiernan o bien en el de las mujeres que, a pesar de ser las protagonistas del problema, no han tenido ni voz ni voto en algo que les concierne vitalmente?

Esta pregunta hace referencia a un estado de cosas absurdo. Cada uno es dueño de su propio cuerpo, cada uno lo controla como quiere y como puede. Es el demonio de las bajas prohibiciones quien, amparándose en mentiras “morales”, ha puesto en manos gubernamentales o eclesiásticas las leyes que rigen el aborto. Esas leyes son inmorales, dueñas de una crueldad inaudita. Cabe agregar, a modo de ilustración, la sugerencia de Freud de que aquel que inventara el anticonceptivo perfecto o infalible sería tan importante para la humanidad como Jesucristo.

  1. ¿Es partidaria del divorcio?

¿Acaso es posible no serlo?

  1. ¿Dónde cree que está el problema más urgente de la mujer?

Los conflictos de la mujer no residen en un solo problema posible de señalar. En este caso, y en otros, la consigna sigue siendo: “Changer la vie”.

  1. ¿Está usted enterada de la lucha de la mujer por sus derechos en los siglos XIX y XX? ¿Sabe cuáles fueron los primeros en reconocerlos y hasta qué límites?

Ignoro estos temas.
***

[1] Reportagem com mulheres trabalhadoras e intelectuais argentinas realizadas pela Revista Sur, e publicada no número 326 de setembro 1970- junho 1971. As respostas de Alejandra Pizarnik constam nas páginas 327-8. Tradução de Nina Rizzi.

[2] No original: “Quand sera brisé l’infini servage de la femme, quand elle vivra pour elle et par elle, l’homme, jusqu’ici abominable, — lui ayant donné son renvoi, elle sera poète, elle aussi! La femme trouvera de l’inconnu! Ses mondes d’idées différeront-ils des nôtres? — Elle trouvera des choses étranges, insondables, repoussantes, délicieuses; nous les prendrons, nous les comprendrons.”